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“Semeador de esperanças e quimeras, Bandeirante de entradas mais suaves, Nos espinhos a carne dilaceras:
E por que as almas e os sertões desbravares, Cantas: Orfeu humanizando as feras, São Francisco de Assis pregando às aves…”
(Do soneto “Anchieta”, de Olavo Bilac)
Em que pesem manifestações autóctones, anteriores e paralelas ao descobrimento e à colonização pelos portugueses, o marco zero para nossa cronologia da poesia brasileira será determinado pela introdução e gradual prevalência da língua de Luís de Camões (1517 a 1524/1580), que nos bate ao palato há meio milênio. Foi com Camões, aliás, que debutaria em versos nosso país, ainda com seu primeiro nome, mas tendo já citada a madeira nativa que depois o batizaria em definitivo:
Mas cá onde mais se alarga, ali tereis Parte também, co’o pau vermelho se nota; De Santa Cruz o nome lhe poreis; Descobri-lo-á a primeira vossa frota.
(“Os Lusíadas”, Canto X, 140 a 144)
A língua portuguesa e sua (talvez até hoje mais alta) expressão em poesia não se fundamentariam sem o Brasil na argamassa. Na nação que ainda engatinhava, os primeiros passos da poesia seriam dados pelo jesuíta José de Anchieta (1534/1597). Nascido na ilha de Tenerife, maior do arquipélago das Canárias, era espanhol, com linhagem paterna na nobre família basca Antxeta (Anchieta), e de cristãos-novos (judeus convertidos) por parte de mãe, o que o levou a estudar em Coimbra, já que a Inquisição Católica, na Espanha, era menos tolerante do que a de Portugal quanto a origens hebréias. Com 20 anos incompletos, ele veio como missionário ao Brasil, onde morreria 43 anos depois, não em antes ser um dos fundadores da cidade de São Paulo e desempenhar papel fundamental na pacificação e catequese dos índios em todo litoral da nova colônia portuguesa, papel que os historiadores até hoje se dividem se de proteção ou dominação. Dúvida também há sobre a veracidade de uma passagem narrada pela tradição. Deixando-se fazer refém da Confederação dos Tamoios, para pôr fim à guerra destes contra os portugueses, Anchieta teria escrito com um galho, na areia de uma praia do litoral sul paulista, os versos do seu “Poema a Virgem”, memorizando-os no cativeiro para, depois de liberto, repassá-los ao papel. Talvez nunca se saiba se o amor à palavra mereceu o impressionante esforço, ou se habitou apenas a imaginação de quem criou a estória e daqueles que a repetem há cinco séculos. Mas traçada na areia da praia ou na lenda sobre a areia do tempo, a poesia transita em mão dupla na ponte entre os gestos. Mais atentos à obra do que ao mito, Antonio Cândido e Aderaldo Castelo, em “Presença da Literatura Brasileira”, consideraram Anchieta “exemplo significativo do século XVI, da realização de uma expressão literária que correspondesse às novas condições do homem na paisagem americana”. Na dúvida se este “homem” se tratava do colonizador d’além mar ou do índio que aqui já vivia, o indicativo da primeira opção se dá quando analisada sua “expressão literária”, construída sobre a sólida base latina do jesuíta, “zeloso leitor de Virgílio (70 a.C. a 19 a.C.) e Ovídio (43 a.C. a 17 d.C.)”, como definiu Alfredo Bosi, em “História concisa da Literatura Brasileira”. No Brasil, Anchieta escreveu em português e latim, mas, sobretudo, em castelhano (sua língua materna) e tupi, que adotou a ponto de dedicar-lhe uma de suas mais importantes obras: “Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”. Em sua composição, ao notar a inexistência dos sons F, L e R entre os índios, ele deduziu que um povo “com tal deficiência em sua fonologia no podia ter nem Fé, nem Leyes, nem Rei”. Conclusão que a professora Marisa Lajolo completou: “contando-se entre os lucros da colonização a Fé que os jesuítas traziam, o Rei trazido pelos portugueses, e as Leis que vinham na bagagem de ambos”. Em poesia, a obra mais famosa de Anchieta foi “De gestis Mendi de Saa” (“Os feitos de Mem de Sá”), primeiro poema épico das Américas e primeiro escrito no Brasil a ser publicado, que descreve a batalha do nosso terceiro governador geral, na Baía de Guanabara, contra os franceses comandados por Nicolas de Villegagnon, fundador da França Antártica no Rio de Janeiro. Editada em Coimbra, em 1563, a epopéia renascentista veio a público antes de “Os Lusíadas”, que só seria publicado em 1572, mesmo tendo sido concluído por Camões, provavelmente, desde 1556. Além do já citado “Poema a Virgem”, Anchieta escreveu também outros poemas religiosos, como essas redondilhas dedicadas a Santa Inês, concebidas numa singeleza que, segundo o poeta e tradutor Alexei Bueno, “talvez só tenha vindo a repetir-se em alguns momentos do nosso Romantismo”, três séculos depois:
Cordeirinha linda, como folga o povo porque vossa vinda lhe dá lume novo. (…)
Por isso vos canta, com prazer, o povo, porque vossa vinda lhe dá lume novo.
Não é d’Alentejo este vosso trigo, mas Jesus amigo é vosso desejo. (…)
Santa padeirinha, morta com cutelo, sem nenhum farelo é vossa farinha.
Ela é mezinha com que sara o povo, que, com vossa vinda, terá trigo novo.
O pão que amassastes dentro em vosso peito é o amor perfeito com que a Deus amastes.
Deste vos fartastes, deste dais ao povo, porque deixe o velho polo trigo novo.
Não se vende em praça este pão de vida, porque é comida que se dá de graça.
Ó preciosa massa! Ó que pão tão novo que, com vossa vinda, quer Deus dar ao povo! (…)
Fácil vislumbrar a metáfora do lume, do trigo novo, como a novidade da fé cristã diante da nova terra, o Brasil, à sombra da selva ainda virgem. Desta, no lugar do “horror” ecoado pela prosa inglesa do polonês Joseph Conrad (1857/1924), o espanhol quinhentista tinha ouvidos de escutar, na colônia portuguesa, o rugido de fome espiritual da imensa maioria pagã (os índios), que estudou e compreendeu como poucos europeus do seu tempo. Talvez não sem motivo, um Chico brasileiro de Holanda, também grande entendedor do povo desta Terra de Santa Cruz, tenha cantado as boas novas no eufemismo de 500 anos depois:
A novidade Quem tem no Brejo da Cruz É a criançada Se alimentar de luz (…)
Meio milênio driblado, como um João de Mané, na tabela de Zé a Francisco, de Chico a José, o método antes proposto à conversão ganha contraste em outros versos do jesuíta:
Como, vem guerreira a morte espantosa! Como vem guerreira E temerosa!
Suas armas são doença, com que a todos acomete. Por qualquer lugar se mete, sem nunca pedir licença.
Tanto que se dá sentença da morte espantosa. como vem guerreira e temerosa! (…)
A primeira morte mata o corpo, com quanto tem. A segunda, quando vem, a alma e o corpo rapa.
Co’o o inferno se contrata a morte espantosa. Como vem guerreira E temerosa!
Se antes expõe a oferta aparentemente livre (“quer Deus dar ao povo”), cuja aceitação é sugerida no realce às possibilidades de luz e alimento da fé cristã, nos versos seguintes o autor age como os pastores evangélicos de hoje, protestantes tão odiados e combatidos pelo padre jesuíta. A analogia se dá na prevalência do apelo dramático e, sobretudo, quando o “mal” é ressaltado para se tentar vender o “bem”, não só com a morte terrena pela peste (trazida à América pela cristandade católica e protestante), mas com a danação eterna do inferno, que, na mão inversa a Conrad, tanto horror deve ter causado aos índios. A Literatura parece confirmar as dúvidas da História sobre Anchieta. Parida no dualismo, na dialética fundamentada pelos gregos antigos, a poesia surge, no Brasil e no mundo, para refletir as contradições do homem de sempre. Da forma que se decifra O amor se esgueira nos becos O amor se oculta nos guetos O amor esvai-se nas celas O amor se escreve nos muros O amor se refaz nos gestos O amor germina nas mentes Numa performance poética realizada por mim no SESC Campos em 2009, intitulada “Som de um poema grafitado”, falei “Da forma que se decifra”, de Vilmar Rangel. Como o projeto do blog é que sejam postados poemas de autores internacionais, nacionais e locais; trago hoje aos leitores esse poema do escritor campista, que também é membro da Academia Campista de Letras. O amor no poema de Vilmar – assim como a palavra – se oculta, mostra-se, escreve-se, repete-se como as anáforas presentes no texto, que reforçam a ideia de que esse sentimento universal se apresenta de forma tão enigmática, impedindo-nos até mesmo de indentificá-lo quando próximo. O poema em questão mantêm uma modernidade que estabelece um diálogo com elementos da tradição. Os versos possuem forma fixa, são todos heptassílabos, o que nos remete aos antigos cancioneiros que muito se valiam da chamada medida velha. A “canção” de Vilmar nos mostra que a medida pode ser velha, mas é a medida certa. Além do Leonardo Berenger, do Paulo Sérgio Pinheiro e do Ricardo Avelino, outro repórter fotográfico que andou registrando imagens do espetáculo “Pontal” foi o Diomarcelo Pessanha. Parceiro da expedição a Canudos, no sertão da Bahia,em 2002, quando do centenário de publicação de “Os sertões”, de Euclides da Cunha; ex-editor de fotografia da Folha e atualmente professor do IFF, Dio é um dos melhores fotógrafos desta terra de planície cortada pelo Paraíba do Sul. Feitos à foz do rio, na apresentação do último dia 5, seguem abaixo alguns de seus registros, rimando poesia escrita e encenada com a da imagem…
De manhã
O hábito de estar aqui agora aos poucos substitui a compulsão de ser o tempo todo alguém ou algo.
Um belo dia – por algum motivo é sempre dia claro nesses casos - você abre a janela, ou abre um pote
de pêssegos em calda, ou mesmo um livro que nunca há de ser lido até o fim e então a ideia irrompe, clara e nítida:
É necessário? Não. Será possível? De modo algum. Ao menos dá prazer? Será prazer essa exigência cega
a latejar na mente o tempo todo? Então por quê? E neste exato instante você por fim entende, e refestela-se a valer nessa poltrona, a mais cômoda da casa, e pensa sem rancor: Perdi o dia, mas ganhei o mundo. (Mesmo que seja por um segundo.)
BRITO, Paulo Henriques. As três epifanias. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 72 Paulo Henriques Brito é um poeta nascido no Rio de Janeiro, ganhou importantes prêmios como o Portugal Telecom de literatura brasileira, além de ser um dos grandes nomes da poesia brasileira contemporânea, professor e tradutor. Seu livro de contos “Paraísos artificiais” tem sido referência em vários vestibulares. O poema acima também já foi referência para uma questão da UFRJ. ”De manhã” é um poema de caráter tipicamente modernista, desde a valorização da temática do cotidiano à linguagem simples. Soa como um alerta a todos nós que nos entregamos à correria e às exigências sem limites da vida moderna. Chegamos ao ponto de nos culparmos quando ficamos em casa sem fazer absolutamente nada. É como se não pudéssemos nos permitir “perder o dia” mesmo que para ganhar o mundo por um segundo. Faz lembrar bastante o conhecido ideal da poesia árcade popularizado pelo filme “Sociedade dos poetas mortos”: Carpe diem. Pelo olhar do repórter-fotográfico Leonardo Berenger, seguem abaixo mais alguns flashes de “Pontal”, numa noite de lua minguante de sexta-feira, no dia 5 deste mês. Penúltimo dia de exibição da peça, foi também a que contou com maior número de público, reunindo cerca de 120 pessoas à foz do rio Paraíba do Sul, onde puderam comprovar como entrada em cena de Artur Gomes (aqui), ao lado de Yve Carvalho e Sidney Navarro, contruibuiu para elevar ainda mais o nível do espetáculo.
W.H.Auden nasceu na Inglaterra em 1907, e é considerado um dos maiores poetas ingleses do século XX. Era também ensaísta , dramaturgo e… viajante. Esta última característica, inclusive, marcou grande parte de sua produção poética. Auden sempre foi admirado pela capacidade de escrever poemas com estilos diferentes. Meu primeiro contato com sua obra foi por meio do filme “Quatro casamentos e um funeral”, produção inglesa de 1994, no qual, durante um velório, o poema que hoje posto é recitado. A tradução é do escritor Nelson Ascher, que procurou recuperar a métrica, a rima e o ritmo do original. Nenhuma tradução consegue tal feito com máximo sucesso. Qualquer tradução será sempre uma paráfrase do original. Mas a de Ascher é, dentre as que li, a que menos trai o talento e a sensibilidade de Auden.
Blues Fúnebres
Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.
Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.
Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.
É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.
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