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Essa semana alguns facefriends postaram um pequeno texto bem interessante em seus murais: “Eu fui criança e não tive Blackberry, Iphone, Nintendo Wii, PlayStation3, muito menos Xbox360. Eu brincava de queimado, pique esconde e andava de bicicleta. Só ia para casa quando escurecia. Minha mãe não me ligava no celular, só gritava: pra dentro! Brincava com amigos, descalço, na areia, no barro e não existia gel antibacteriano. Que infância boa!” Realmente fantástica! Eu incluiria amarelinha, pique bandeira, pipa e salada mista. Era dessa maneira que eu vivia “no tempo em que festejavam o dia dos meus anos”. Mas nada de nostalgia nessa manhã de sexta, prenúncio do fim de semana. Vamos ao que interessa, já que o nosso tempo é o dia de hoje. Atualmente, parece que há uma visão negativa acerca da infância, ou melhor, do modo de ser criança: meninos e meninas trancados em seus respectivos quartos passam o dia (e também a madrugada) na frente da tela do computador navegando em redes sociais (conversando sabe-se lá com quem) e brincando com jogos cujos temas são bater, roubar ou matar. Façamos, pois, um recorte de classe. São as crianças da classe média que têm mais acesso à internet, enquanto as outras, quando fora das lan houses, continuam a jogar bola no campinho. Muito bem. Partilho da visão crítica acerca da construção contemporânea da infância. Afinal, problemas de adulto, como stress, obesidade e ansiedade, têm cada vez mais se tornado doenças infantis. Sem falar nos casos de pedofilia virtual. Há, no entanto, uma outra forma de enxergar a realidade. Penso agora nos jovens insurgentes de países ditatoriais. Em dezembro de 2010 ocorreu a Primavera Árabe, com a derrubada da ditadura tunisiana. Contagiados, jovens do Egito, Síria, Iêmem e, ainda a pouco, da Líbia, saíram às ruas para tentar derrubar suas ditaduras, há décadas no poder, por governos democráticos. Também em democracias tem havido manifestações, como ocorreu recentemente em Londres e na Espanha. Essa juventude protesta contra a ordem neoliberal que tem promovido o desemprego e o desmonte do Estado de bem-estar social. Parece que estamos de volta ao Maio de 68, só que agora os manifestantes organizam seus movimentos pela internet, sobretudo, através do facebook e do twitter. Sempre digo (e acho até que já escrevi aqui) que o mundo virtual pode ser usado tanto como uma cerca, trancando o indivíduo num mundo particular e ilusório de uma second life, quanto como uma ponte, estabelecendo conexões reais entre indivíduos que teriam bastante dificuldade de projetar uma ação coletiva em outros tempos. É a velha questão da dose, que transforma a substância em remédio ou em veneno. Dia dessas, meu irmão caçula me disse que jamais leu um livro em toda sua vida de 17 anos. Eu já ia chama-lo de imbecil quando me dispus a conversar. Descobri que o cara simplesmente manja da história não oficial – a que quase não está nos livros – e saca sobre Mandela, Martin Luther King e Haile Silassie. Conhecimento adquirido via sites, blogs e wikipedia. A internet, assim como o avião, a energia atômica e a penicilina, é aquele fato social que faz a nós, cientistas sociais, considerarmos a imprevisibilidade do destino humano para além da tão sonhada ordem e progresso a caminho da evolução. As coisas são usadas para o bem ou para o mal de acordo com o bem e o mal que há em cada um de nós e na justa medida do nosso tempo (e do nosso entendimento). Talvez, ao invés de criticar o modo atual de ser criança em nome da saudade e da nostalgia, devêssemos prestar mais atenção nos conteúdos virtuais sem preconceitos cronológicos. Dia desses, vi uma criança diante de uma máquina de escrever perguntando onde ficava o delete. Será que os pais teriam tempo para responder?
para quem não sabe aonde ir qualquer lugar serve para quem não tem lugar para quem qualquer lugar serve para quem não sabe o lugar para quem o lugar não serve para qualquer lugar, quem sabe?
Dia desses arrumei a mala e saí sem destino por aí por ali, por lá e parei sem pensar aqui dentro de mim.
E para quem pensa que em Campos não há nada a fazer a não ser beber (tudo bem! Sei que a nossa política municipal de cultura é pra lá de precária), sugiro que acompanhe a programação do Sesc e do Sesi. Tenho conseguido assistir a bons espetáculos. Hoje, por exemplo, tem a Adriana Medeiros e o Trio de Bambas no Sesc, com o espetáculo “A dama do encantado”, que mostra o repertório de Aracy de Almeida (aquela de óculos fundo de garrafa que era jurada ao lado de Elke Maravilha e Pedro de Lara no Show de Calouros do Sílvio Santos, lembra?), a grande intérprete do Noel Rosa, a partir das 20h. Aliás, a Adriana estará amanhã em outra peça, dessa vez no Trianon. É o espetáculo “Sociedade Ambulante”, um tributo ao Raul Seixas, o maluco beleza. Já no Sesi tem hoje a banda Segredo de Estado com a turnê “Rock é o segredo”, em comemoração aos seus 15 anos de estrada, com uma apresentação repleta de efeitos especiais, fogos e cascata in door, bolas infláveis caindo do teto e um boneco de cinco metros no palco, numa verdadeira produção. Confesso que estou ansiosa pela estreia da peça “O julgamento de Lúcifer”, texto de Adriano Moura e direção de Fernando Rossi, a ser realizada no próximo dia 02 de setembro no Teatro de Bolso, com sessões às 19h e 21h. O espetáculo promete bombar! Enfim, essas programações me fazem viajar por territórios desconhecidos, me trazem novas sensações e descobertas e, certamente, sempre me transformam de alguma forma. Afinal, a arte tem o atributo de deslocar a realidade de lugar, mesmo quando esse lugar é a gente mesmo.
Creio que vocês devem imaginar que corro por fora da mídia dominante. Sou leitora de blogs, jornais virtuais e sites alternativos e, certamente por isso, a minha visão da realidade não se afina com o que é dito toda noite pela Fátima e pelo Willian. Contra fatos se podem produzir muitíssimos argumentos e, sendo assim, fico besta com certas reportagens e linhas editoriais. Pensar na neutralidade da imprensa é tão ridículo quanto acreditar cegamente na própria ciência. A visão da mulher, por exemplo, é tão repleta de misoginia em parte do discurso midiático que posso imaginar o gozo tanto sádico quanto escroto do babaca (ou da babaca) que redige certos textos atrás do anonimato. Nessa semana descobri uma crítica ótima no blog Groselha News sobre um daqueles guias sexuais da revista Nova, da editora Abril. Como todo mundo sabe, a Nova é uma revista dirigida ao público feminino que resume a mulher em mais ou menos três tópicos assim hierarquizados: como seduzir e segurar seu homem; como ficar linda a atraente para o seu homem; como trabalhar fora e educar as crianças sem perder a competência para o chefe, a atenção para os filhos e, claro (!), a beleza e a dedicação ao seu homem. É de doer ler aquela baboseira toda que objetiva fabricar (ou catequizar) a mulher moderna. Moderna? Mas vamos à crítica encontrada no blog. Trata-se de uma análise da reportagem “30 manobras sexuais extra hot (sem usar as mãos!)”, publicada na Nova. Não dá pra reproduzir tudo aqui, mas escolhi uma das críticas bem-humoradas pra citar. Diz a lição da revista: “Excite-o colocando o pênis embaixo da sua axila. Ele vai adorar a alta temperatura”. Ao que a blogueira responde: “O famoso, irresistível e incendiário sexo suvacal. Agora está totalmente explicado porque recentemente passaram a vender tanto desodorante que clareia a axila, né? Não continuamos sem saber o porquê”. Confesso que gargalhei sem conseguir parar ao ler esse e os demais comentários, mesmo porque se a digníssima leitora se dispuser a colocar em prática o que é sugerido no manual, tem mais chances de ter um ataque de riso que um orgasmo. Enfim, a coisa é tão grave que muitas mulheres não se dão conta do ridículo de certas reportagens e não percebem que elas giram em torno do universo masculino.Do meu ponto de vista, a mídia dominante até tem abordagens interessantes de certos assuntos, mas é no mínimo alienante o que se lê, vê e escuta sobre a maioria dos fatos. Dia desses tive que engolir o café escutando o Rodrigo Pimental (ex-capitão Nascimento e agora comentarista da Globo) dizer no Bom Dia Brasil que a violência doméstica é produto do armamento privado e não do machismo presente em nossa sociedade. Como assim? Mulheres, armem-se e matem seus maridos antes que eles atirem primeiro. Ninguém merece!Já devo ter cansado a vista de vocês com meu desabafo desaforado. Então me despeço sugerindo uma visita ao evento gratuito “Gênero, família, política e homofobia: trajetórias e desafios” que ocorrerá nos próximos dias 22 e 23 de agosto, no auditório do Hospital Veterinário da UENF, a partir das 10h da manhã. Esta sim é uma boa oportunidade de discutir as relações e os problemas de gênero sem a bestialidade produzida no senso comum da mídia dominante que, em nome da liberdade de expressão, reproduz a ignorância. Quem, como eu, viaja pela BR 101 toda semana, precisa acordar mais cedo pra chegar a tempo ao seu destino. É que além dos inúmeros acidentes, há retenções em alguns trechos da rodovia por motivo de obras. Não se trata da duplicação, mas de operações do tipo tapa buraco. Segundo nota da assessoria de imprensa do senador Lindbergh Farias (PT-RJ), divulgada na última quarta-feira, a retomada das obras de duplicação, no trecho que liga Macaé a Campos, não tarda. As obras de melhorias da via estavam paralisadas por falta de licenciamento ambiental. A informação foi dada após reunião entre o parlamentar e o presidente do Ibama, Curt Trennepohl. Com o sinal verde, a Autopista Fluminense, concessionária que administra a rodovia da ponte Rio-Niterói à divisa com o Espírito Santo, poderá realizar as obras, após a publicação no Diário Oficial da União. Sem dúvida, a duplicação da BR 101 é importantíssima para o desenvolvimento regional, já que por ela trafegam, além de pessoas, cargas e materiais da indústria do petróleo e, em breve, tudo que chegará ou sairá do Porto do Açú. No entanto, há uma pergunta fundamental a ser feita: será que os motoristas passarão a dirigir de modo mais seguro e defensivo depois das obras? Questiono-me porque é conveniente culpar os graves acidentes que têm frequentemente ocorrido pelas más condições da rodovia, enquanto se dirige em altas velocidades com direito a ultrapassagens de grande risco. Não há um dia sequer em que eu me desloque no trecho Campos-Macaé sem observar carros, ônibus e caminhões cortando em plena faixa dupla. E é a partir dessa observação que partilho com o Roberto da Matta de sua interpretação acerca do trânsito brasileiro em seu próximo livro Fé em Deus e Pé na Tábua: “Porque esse ditado revela muito do estilo que nós, brasileiros, expressamos no trânsito. Temos essa crença de que somos protegidos por uma força superior, que nada vai nos acontecer de mal. E, se acontecer, existe uma vida depois da morte. Esse é o lado tradicional da história e do comportamento. E temos também o nosso lado moderno, amante da pressa e de correr riscos. Só que fazemos isso justificados por Deus, de modo que podemos ignorar as leis, os outros e as nossas próprias vidas. Até nossas músicas populares legitimam nossa irresponsabilidade ao dirigir. Veja, por exemplo, Roberto e Erasmo Carlos e o que eles escreveram em “As curvas da estrada de Santos”, “Eu sou terrível”, “120… 150… 200 km por hora”, que invocam o risco e a aceleração como partes da conquista amorosa. O nosso comportamento terrível no trânsito é resultado da incapacidade de sermos uma sociedade igualitária; de instituirmos a igualdade como um guia para a nossa conduta. Nosso trânsito reproduz valores de uma sociedade que se quer republicana e moderna, mas ainda está atrelada a um passado aristocrático, em que alguns podiam mais do que muitos, como ocorre até hoje. Em casa, nós somos ensinados que somos únicos, especiais. Aprendemos que nossas vontades sempre podem ser atendidas. É o espaço do acolhimento, do tudo é possível por meio da mamãe. Daí a pessoa chega na rua e não consegue entender aquele espaço onde todos são juridicamente iguais. Ir para a rua, no Brasil, ainda é um ato dramático, porque significa abandonar a teia de laços sociais onde todos se conhecem e ir para um espaço onde ninguém é de ninguém. E o trânsito é o lado mais negativo desse mundo da rua. É doentio, desumano e vergonhoso notar que 40 mil pessoas morrem por ano no trânsito de um país que se acredita cordial, hospitaleiro e carnavalesco. No Brasil, você se sente superior ao pedestre porque tem um carro. Ou superior a outro motorista porque tem um carro mais moderno ou mais caro. Na pesquisa com motoristas de Vitória, a maioria dizia: “Eu bebi, eu sei beber e consigo dirigir assim”. E se outro tiver bebido a mesma coisa? “Aí não, né?” O bêbado, o barbeiro, é sempre o outro. O motorista não consegue entender que ele não é diferente de outro motorista ou pedestre, que ele não tem um salvo-conduto para transgredir as leis. No Brasil, obedecer à lei é visto como uma babaquice, um sintoma de inferioridade. Isso é herança de uma sociedade aristocrática e patrimonialista, em que não houve investimento sério no transporte coletivo e ainda impera o “Você sabe com quem está falando?”. Quem, também como eu, viu a morte de perto depois de sofrer um acidente de trânsito, sabe o quanto as reformas nas estradas têm que vir acompanhadas de mais educação dos motoristas. Toda semana atravesso à pé a rua Voluntários da Pátria em direção a um shopping da cidade e sinceramente não sei como ainda não ocorreu um atropelamento ali. Apesar da faixa de pedestres, não há um veículo sequer que pare para a travessia, mesmo quando são crianças e idosos os que aguardam uma oportunidade. Se os motoristas fazem das ruas urbanas uma pista de corrida, o que farão quando a BR 101 for duplicada?
Na última semana, recebi a notícia da morte de Estamira, protagonista do documentário de mesmo nome, dirigido por Marcos Prado e lançado em 2005. Estamira era uma catadora de lixo do Aterro de Gramacho, localizado em Duque de Caxias. Diagnosticada como esquizofrênica, ela alternava narrativas confusas com discursos extremamente lúcidos nas entrevistas concedidas ao diretor. Em seu vocábulo metafórico, se opunha à sociedade de consumo e ao fanatismo religioso: são “espertos ao contrário” e “trocadilhos” aqueles que se dopam com bens e com fé, assim como os médicos, que tentavam dopá-la com remédios – “o controle remoto artificial” – ainda que sua missão na terra, ou melhor, “no formato humano, na carne sanguínea” fosse “revelar a verdade, somente a verdade, e cobrar”, já que “Estamira estava em todas as coisas”, sendo “a beira do mundo”. Exibi esse documentário para meus alunos no último semestre. O objetivo era discutir o discurso esquizofrênico (e teoricamente ilógico) de Estamira com a realidade apresentada em outros três filmes: Ilha das Flores (1989), de Celso Furtado; A história das coisas (2006), de Annie Leonard; e Lixo extraordinário (2009), de João Jardim. Em todos os vídeos, o que se evidencia são as injustiças produzidas pelo sistema capitalista, tomando o lixo como ponto de partida. Não apenas o lixo material, mas também o lixo humano: essas vidas desperdiçadas pela desigualdade social, consideradas inúteis pela sociedade e sem qualquer valor pelo Estado. Não se pode cobrar do Outro, aquilo que ele não pode, não está preparado ou disposto a oferecer. Para muitos alunos, a exibição não passou de uma tarde maçante ouvindo uma maluca falar de coisas inteligíveis e uma professora insistindo em criticar os elevados padrões de consumo, enquanto o que se deseja é formação técnica, trabalho na plataforma e shopping center na folga. Tempos modernos, não? Para outros, entretanto, os filmes abriram as cortinas de sua alienação e, como num assombro, fizeram romper com o ordinário e suas viseiras televisivas. Sei disso porque, como exercício, fizeram excelentes pequenos documentários sobre a produção do lixo de suas respectivas casas, ruas e bairros e, por fim, acabaram refletindo acerca das ideias de desenvolvimento e sustentabilidade. E é exatamente neste ponto que queria chegar, pois todo mundo fala em desenvolvimento sem dizer quem será desenvolvido e em sustentabilidade sem dizer o que será sustentável. Não parecem antagônicos os discursos que de um lado defendem o crescimento e de outro a preservação ambiental? Para haver desenvolvimento é preciso que haja consumo e para haver sustentabilidade é preciso garantir que as gerações futuras possam usufruir dos mesmos recursos naturais que hoje não apenas usamos como também destruímos. Toda essa polêmica às vezes é levanta em nome da cidadania, conceito que virou jargão, mas que no Verbo de muitos não se estende além da vaga ideia de se garantir direitos e deveres. Que direitos? Que deveres? Estamira era uma dessas personagens da vida real cuja cidadania jamais lhe fora concedida. Perdeu o pai quando contava cerca de dois anos; e a mãe, quando já era adulta – vítima da própria loucura e do descaso do Estado e de suas instituições manicomiais. Abusada pelo avô, que acabou por levá-la à prostituição quando tinha 12 anos, Estamira casou cedo, aos 17, com um homem que quis salvá-la da vida de programas. Separada dele e com um filho, casou-se novamente com um imigrante italiano, com quem teve duas filhas (das quais a última foi criada por outra pessoa). Também separada do segundo marido, Estamira passou a viver do lixo, recolhendo dele material para reciclagem, peças reaproveitáveis e também comida. Estuprada duas vezes, de mulher religiosa passou a ser uma pessoa crítica da religião, questionando sobre um Deus que permite tanta desgraça e tristeza. Entretanto, dentro de sua tragédia pessoal e de sua loucura, numa de suas falas no documentário, Estamira faz uma interessante análise da educação brasileira dizendo: “vocês não aprendem, vocês copiam”.
Nesse mês fui surpreendida com a comemoração do dia do homem. Em outros países, a data comemorativa é o dia 19 de novembro, mas no Brasil foi escolhido o dia 15 de julho. Não sabia da existência desse evento e, de repente, fiquei meio atônita ao pensar que talvez fosse gentil parabenizar os homens que conheço. Mas parabeniza-los pelo quê exatamente? Tudo bem, meus amigos são inteligentes, críticos, abertos às mudanças e por isso eu os admiro. Mas daí a festejar certos homens ou certos comportamentos masculinos, prefiro dar um perdido, pois é no mínimo alienante comemorar a própria dominação presente em determinados atos e discursos. Desse modo, é preciso considerar que tipo de homem se deseja celebrar. Originalmente, o dia do homem foi criado, inclusive com apoio da ONU, com dois principais objetivos: promover a saúde masculina e discutir a respeito de uma relação mais igualitária entre homens e mulheres. Quanto à saúde, é realmente imprescindível romper com os sentimentos de invencibilidade (“Eu sou o cara!”) e de impenetrabilidade (“Prefiro morrer a deixar alguém enfiar o dedo”), que têm levado aos hospitais super machos quebrados em acidentes de carro e morrendo de câncer de próstata. Quanto às relações de gênero, é urgente discutir a desigualdade e revertê-la, já que problemas como estupro, feminização da pobreza e violência doméstica continuam a existir paralelamente ao sentimento de posse de namorados ciumentos e às investidas sexuais de chefes com síndrome de Don Juan. Na atualidade, fala-se em crise da masculinidade, que seria algo como a fratura das identidades masculinas, depois que os movimentos feministas questionaram as relações hierárquicas entre os papéis de gêneros, por exemplo, quanto ao direito de votar. O antropólogo Sérgio Carrara considera a existência de dois principais modelos (arquetípicos) identitários masculinos: o guerreiro e o pai de família. O primeiro teria por características o desprendimento, o trânsito e a justiça realizada de forma heroica ou anti-heróica. O segundo pode ser representado pela imagem do provedor pacato, previdente e trabalhador. A estes modelos existem versões sobrepostas ou concorrentes, compostas por marcadores como classe, geração, raça e orientação sexual. A conclusão possível dessa afirmação é que o masculino não é construído apenas em oposição ou complementariedade ao feminino, mas que existem também masculinidades hegemônicas e masculinidades subalternas. A formação do “sujeito homem” através de afirmações de virilidade a partir da rivalidade (e da violência) fundadas na ideia de honra (“honrar aquilo que se carrega entre as pernas”) é, por exemplo, a prova de que a constituição do masculino tem gradações bastante hierarquizadas. Ser “mais homem” ou “menos homem” dependerá da valoração social de certos códigos identitários. Muitos homens, em seus complexos de Adão, nos responsabilizam por sua crise e entendem que as constantes mudanças dos papéis de gênero os colocam numa condição de insegurança e indeterminação. No entanto, a solução não poderá ser o retorno ao padrão patriarcal que, de fato, continua a nos guiar. Assim, se for para discutir as relações entre homens e mulheres e a formação de masculinidades e feminilidades pautadas na equidade, apoio a comemoração do dia do homem até que não mais precisemos comemorar o dia internacional da mulher. Sei que o artigo de hoje é meio polêmico, pois envolve não a política das instituições, mas a política nas instituições. Entretanto, a análise é mais com luneta que com microscópio e, portanto, nada de nomes, nem de fatos específicos. Vou direto ao assunto: a Guarda Municipal da cidade é vista com certa antipatia pela sociedade. Basta observar que a expressão absolutamente pejorativa “guardinha” é a mais utilizada nas narrativas de alguns munícipes quando abordados ou autuados, sobretudo no trânsito. Sei disso não apenas por ser campista, mas porque escuto toda semana o desabafo do efetivo durante as aulas que ministro no curso de qualificação oferecido pela ONG Viva Rio. Minha disciplina chama-se “Administração de Conflitos”, mas antes de explicar como administrá-los promovo uma catarse reflexiva nas turmas, o que certamente abre os caminhos para a cizânia. Os relatos dos guardas informam sobre cidadãos que não querem ser tratados como indivíduos sujeitos aos direitos e deveres postulados pelas leis. É gente que depois de cometer algum tipo de infração acha que não pode ser punida e recorre aos seus contatos para pedir ou exigir tratamento diferenciado de pessoa. Estamos falando desses absurdos relacionais que vão do cordial “jeitinho” ao violento “você sabe com quem tá falando?”. Os agentes da Guarda estão cotidianamente sujeitos aos códigos hierárquicos de uma sociedade tradicional que ainda opera segundo posições e contatos. É o amigo do vereador, o vizinho do assessor e o motorista do juiz, quando não os próprios em pessoa, requerendo o seu tratamento diferenciado, ou melhor, personalizado. Então, pergunto: será que não existe também o conhecido do guarda? E é aí que a reflexão esquenta mais, pois evidentemente as instituições não estão livres dos códigos que são operados fora delas. Penso que as experiências relatadas pelos guardas municipais revelam aspectos bem mais profundos das relações sociais não só em Campos, mas também no próprio país. Evidentemente, estou me referindo à visão (ou cegueira?) que se tem do universalismo de procedimentos. A cabeça de parte dos brasileiros ainda vislumbra no Estado uma espera paternalista e patrimonialista. Não por outra razão, os “favores” e o “rouba, mas faz” são justificativas usadas nas urnas. Infelizmente, a coisa pública permanece vista com desconfiança: ou bem massacra o indivíduo, ou bem favorece a pessoa. Quando os campistas chamam os guardas civis de “guardinhas” reforçam o distanciamento (e a descrença) da sociedade em relação ao Estado à medida que telefones são acionados como armas para pedidos de liberação. Como agir em situações onde o que está em jogo não é apenas a discordância diante da aplicação da lei, mas a cultura do prestígio pessoal, quando não da arrogância do poder? Neste contexto, é melhor nem mediar certos conflitos, sob pena de que também não haja certas mudanças. Sempre pensei que os professores tanto ensinam quanto aprendem com seus alunos. Obviamente, minha visão do magistério nada tem de autoritária. Mas não achava que o aprendizado fosse tanto. Tenho aprendido a me posicionar no tempo com meus alunos do ensino médio. Dia desses, comentei que há uns anos atrás não existia água mineral de galão pra vender. Olhos em riste para mim: “ué, professora, como as pessoas bebiam água?”. A pergunta bateu mal. De repente, me senti numa daquelas festas que a gente vai sem conhecer direito os convidados e fica meio deslocado, sabe? Explicar que a água da torneira não era tão poluída quanto hoje e que os filtros de barro davam conta do recado foi realmente entrar numa máquina do tempo, digo, do meu tempo. Aí comecei a falar de um monte de coisas que pra eles deve ser notícias do além: máquina de escrever, filme fotográfico e a tão esperada carta: “vocês estão achando que a gente se comunicava com a facilidade de hoje? Tinha que escrever a carta, ir aos correios e esperar a resposta às vezes durante meses.” Olhos arregalados: “ai, professora, que horror!”. De fato, um horror. Ou não. No nosso atual mundo virtual, as redes sociais funcionam como pontes, mas às vezes são também verdadeiras cercas. Andei observando algumas coisas que rolam no facebook. Por um lado, a comunicação expressa promove um enorme acesso à informação, sobretudo, às versões não oficiais da realidade. Por outro, as postagens funcionam como uma espécie de acompanhamento do crescimento da grama do vizinho, que, por definição, é sempre maior, mais viçosa e mais bonita. Quero dizer com isso que nos perfis das redes sociais nunca ninguém está de caixa-baixa. Observem as fotos postadas. Todos estão sorrindo em festas ou em lugares deslumbrantes, abraçados com amigos e amores ou com um copo na mão. Isso nos dá a sensação de que a vida alheia é perfeita, assim como as caras que aparecem em Caras. Vivemos num tempo de investimento em marketing pessoal e, sorria, você está sendo filmado! Caso contrário, nada de convites para festas. Diante desse contexto imagético, é um desafio tornar o conhecimento mais aprofundado. Definitivamente, o tempo é das imagens e não do Verbo. Por isso, promover uma roda de leitura em sala de aula é mais difícil que produzir uma sessão de cinema. Aí me lembro de meus anos de primário, quando a leitura de um texto vinha acompanhada do temido ditado. Tínhamos que copiar dez, vinte vezes a palavra escrita de modo incorreto, segundo a norma culta. Além de tudo, a professora nos ensinava a interpretar as mensagens. Até hoje guardo o livro “Classificados poéticos”, lido na minha distante quarta série do primário. Naquela época, ler não era chato e os alunos não assistiam às aulas conectados em suas redes sociais. Essa semana, fechando o semestre, disse aos meus alunos que estamos num momento muito utilitário e que as pessoas, de modo geral, só querem apre(e)nder aquilo que tem ou terá alguma função na vida prática. Não é verdade? “É professora! Pra que eu vou precisar de sociologia?” O Lévi-Strauss, antropólogo francês, dizia que o pensamento selvagem não classifica a natureza porque ela lhe é útil. Pelo contrário, ela se torna útil na medida em que é classificada. “Então, querido alunos, por que vocês assistem aos domingões legais da TV se certamente eles não lhe servirão para nada?” Olhos iluminados: “verdade, professora!”. Educar é comover. Já em casa, abro meu facebook, meu Orkut e toda essa papagaiada que não nos leva a lugar nenhum, mas nos deixa a sensação de que o tempo está passando e estamos todos mais felizes. Estou lá sorrindo também, ainda que cansada de um semestre inteiro de muito gogó e criatividade. Nas muitas janelas que se abrem na tela, meus alunos estão lá me convidando a participar de suas vidas.
Todo mundo deve estar observando a televisão dia após dia batendo na mesma tecla: são os jornais noticiando paradas e casamentos gays pelo mundo afora e as novelas repletas de personagens homossexuais. Só “Insensato Coração”, da Globo, tem pelo menos quatro histórias de gente saída ou saindo do armário. Já “Amor e Revolução”, do SBT, levou ao ar o primeiro beijo entre duas mulheres. A massificação da mídia contra a homofobia me traz um questionamento: será que finalmente as lutas dos movimentos sociais LGBT estão surtindo efeito ou as pessoas, à exceção do juiz de Goiás e do trio Bolsonaro, Mirian Rios e Garotinho, estão caindo em si e vendo que não se pode negar a realidade? Para responder a essa questão é preciso ultrapassar especulações mais romantizadas em torno de conquistas políticas ou de conscientização popular. Pensemos nos guetos. Imaginem que o armário não é o aprisionamento do desejo, mas os próprios guetos, que podem ser desde bares, boates e saunas até hotéis, festas e praias destinados ao público gay. São os lugares gay friendly ou simplesmente simpatizantes, nos quais os homossexuais se sentem acolhidos. A guetificação advém das relações assimétricas de poder entre diferentes grupos projetadas no espaço urbano, ou seja, são lugares que ao mesmo tempo funcionam como encapsulamento institucional e como ambientes de visibilidade e afirmação identitária. Esse é o caso, por exemplo, da Farme de Amoedo, trecho da praia de Ipanema no Rio de Janeiro. Na minha pesquisa de doutorado sobre o mito brasileiro da praia democrática, descobri que as areias ipanemenses estão abertas aos diferentes com suas diferenças, desde que cada um fique no seu quadrado. Nesse caso, a “Farme” é a praia onde, cercados por bandeiras do arco-íris, os homossexuais se sentem seguros e livres. Entretanto, fora daquele trecho pode ser que eles sofram táticas de evitação, hostilidades e até mesmo agressões. Se por um lado, o gueto segrega e controla, por outro ele integra e protege. Assim, deixando de lado o olhar romântico acerca das aparições homossexuais na TV, vamos ao que interessa a maioria: grana. Como indica o sociólogo francês Loïc Wacquant, “o gueto é um meio sócio organizacional que usa o espaço com o fim de conciliar dois objetivos antinômicos: maximizar os lucros materiais extraídos de um grupo visto como pervertido e perversor e minimizar o contato íntimo com seus membros, a fim de evitar a ameaça de corrosão simbólica e de contágio”. O não-dito da construção da “Farme” e de todos os outros lugares como um destino turístico homossexual é exatamente o retorno econômico do chamado “turismo rosa”, pois trata-se, fundamentalmente, de um público que tem poder aquisitivo muito alto, afinal, são duas rendas somadas, sem crianças. Não nego aqui as conquistas da militância, nem a conscientização da população. Sem dúvida, o cenário está mudando e pode ser que, no futuro, a homossexualidade seja vista com mais naturalidade e os homossexuais deixem de ser cidadãos de segunda classe e conquistem plenos direitos civis. Mas não dá pra deixar de contar o vil metal e visualizar os consequentes interesses econômicos sobre o público gay. Afinal, rico é delicado, pobre é bicha. |
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