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Domingo

sozinha

Acho domingo um dia sacal. Na televisão nada presta pra mim. Depois do almoço em família, a tarde se esvazia em silêncio. Talvez fosse bom ler um livro ou ver o mar no pontal de Atafona, mas tenho preguiça. Cinema, até pode ser. Ouvir música, escrever um poema, visitar os avós, encontrar um amigo, assistir ao futebol são possibilidades pra esse tempo solto na semana. Sei lá, na hora do Fantástico já me encontro totalmente deprimida. Os ponteiros parecem parados.  Sinto sintomas de saudade misturados à nostalgia de uma gaveta arrumada. Domingo é o dia mais solitário pra quem está solteiro.  

            Na cidade, quase tudo está fechado e eu não esqueço que, não por acaso, a semana se divide em dias de feira. Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira temos compras a fazer e contas a pagar. São dias vividos entorno do mercado de bens, serviços e relações interpessoais. No sábado, todo mundo espera alguma coisa à noite. Tudo pode mudar. Mas se não muda, ver a vida acontecer como um dia de domingo é deixar falar a voz do coração. Então, sozinha no sofá, entre xícaras de café, corajosamente deixo a dor doer. Sim, paixão antiga mexe com a gente e é tão difícil esquecer, sobretudo, no domingo.

            Meu telefone quase sempre toca pelo menos umas três vezes. Pode ser um amigo desejando felicidades, minha tia de longe querendo notícias ou um convite pra mais tarde. Mas nunca quero sair, nem há tantas novidades assim pra contar e ser feliz nesse dia é verdadeiramente  impossível. Se eu fosse católica, haveria a missa. Se tivesse um filho, haveria o parquinho. Ou se namorasse, haveria filme, pipoca e sorvete. Mas meus domingos são só de lembranças, arrumação de armários, soneca, sossego e solidão.   

            Fico pensando em como foi que isso começou. Quando eu era criança, domingo era um dia absolutamente esperado. A lentidão das horas não incomodava em nada e eu sonhava muitos planos. Não sei há quanto tempo exatamente domingo é um deserto inteiro a atravessar. Talvez desde que a vida me pareceu um arremedo. De qualquer forma, não tenho força. Não suporto. Domingo é o dia mais triste do mundo. Cinza e angustiada, torço pra logo pegar no sono. E é aí que tudo se reverte porque, na segunda de manhã, enquanto escovo os dentes, minha cara-metade se reflete no espelho.

Cultura em Campos

Mal cheguei ao Rio e dentro do ônibus a caminho da Lapa ressoavam os batuques lá de fora. Aliás, assisti recentemente ao filme “O mistério do samba” e fiquei encantada. Trata-se de um documentário produzido pela Marisa Monte com participação especial de Zeca Pagodinho e Paulinho da Viola. É um registro emocionante dos bambas da Velha Guarda da Portela: aqueles homens e mulheres de origem simples, moradores do subúrbio carioca, que se mantiveram trabalhadores por uma vida inteira,  mas que criaram essas maravilhas que canto nos sambas que vou. Aqui na cidade maravilhosa, quem determina a batida do meu coração é o tamborim.

Mas não é exatamente sobre o Rio que quero falar. Trouxe comigo um pote de chuvisco pra jamais esquecer a minha goitacá. Dizem os historiadores que no passado as elites campistas ganhavam dinheiro no canavial e iam se divertir na capital, quando não em Paris. Pode ser, mas se o Trianon da época era mesmo aquela beleza, imagino que muitos eventos artísticos tenham acontecido ali. Alguém pode me narrar isso? Escrevam no meu blog, por favor. É preciso não deixar que essa memória morra, pois o registro do passado abre alas para a reivindicação do futuro.

Não raro, escuto de conhecidos conterrâneos que em Campos não há nada pra fazer a não ser beber nos botecos da Pelinca. Não vou negar que há na cidade uma verdadeira cultura etílica, mas tem outras coisas sim. Na semana passada, assisti na quinta ao show da Itamara Koorax e na sexta ao da Isabela Taviani. Fora isso, sempre há o samba da Lene Moraes e a poesia de Arthur Gomes. No mês anterior, vi as peças “Tudo que eu queria te dizer” e “Simplesmente eu, Clarice Lispector” e esteve em cartaz “Conselho de classe”. Impressionante, mas em todos esses eventos encontrei as mesmas caras.

A questão que me parece premente é: onde está o investimento em cultura da prefeitura? Todos os eventos que fui foram de iniciativa do Sesc, do Sesi ou então de particulares. Lembro-me bem de um show da Nana Caymmi que fui no Jardim São Benedito, dentro daquele projeto “Viva Melhor, Viva Música”. Era de praxe que todos os artistas no final de suas apresentações recebessem uma lista de agradecimentos com o nome do prefeito e de alguns de seus secretários. Nana começou a ler aquilo e acredito que tenha enchido o saco com a babação. Soltou os papéis e disse em alto e bom tom: “não vou agradecer nada, não tenho que agradecer nada. A prefeitura não faz mais que a sua obrigação. Tem mesmo que oferecer isso aqui ao povo”. Saiu do palco ovacionada. Muitíssimos aplausos!

Infelizmente, o projeto de música terminou em CPI, como tantos outros projetos dessa prefeitura de sete cabeças. Enquanto isso, a imagem de Campos vai se deteriorando em alta velocidade e a sensação que se tem é a de que não há mesmo nada pra fazer a não ser encher a cara pra esquecer as mazelas de nossa pobre cidadezinha rica. Enquanto isso, fico em férias pelo Rio, mas sempre com a esperança de que, ao retornar para o meu lugar, sem ter feito planos de me enganar, nem enganos de me encontrar, uma nova vida tenha chegado.

Marcha dos Homens

Vou jogar a real. Querem saber? Desliguei de vez a televisão. É que não quero mais saber de Mércia e Bispo, e tampouco de Elisa e Bruno. Não que a violência contra a mulher já não me importe, mas o nível da informação e os debates que dela derivam estão fora de foco. Não interessa de Mércia era uma jovem e promissora advogada e Bispo um apaixonado ciumento, nem se Elisa era uma “Maria Chuteira” e Bruno um ídolo do futebol. Todos os dias milhares de Mércias e Elisas são verbalmente agredidas e fisicamente espancadas, torturadas e assassinadas por Bispos e Brunos que se acham acima do bem e do mal. A discussão na mídia está errada. A violência contra a mulher é um fato. Cabe então perguntar: por quê?

Possivelmente, antes da revolução agrícola, homens e mulheres deviam viver em relativa harmonia. A imagem do homem das cavernas puxando a mulher pelos cabelos talvez seja uma ilusão. Com a criação da propriedade privada, a herança foi inventada. Mas para que o homem tivesse herdeiros era preciso também que ele tivesse absoluta certeza sobre quais eram seus filhos. Aí é aquela história do dito popular: “Filhos das minhas filhas, meus netos são. Filhos da minha nora serão ou não”. Para garantir a linhagem masculina, a mulher passou a ser controlada. A virgindade tornou-se uma dádiva e a fidelidade feminina uma questão moral. Elas deixaram de ser donas de seus desejos, de seus corpos e de sua história e foram transformadas em objetos. Até poucos séculos atrás, nas sociedades ocidentais civilizadas, as mulheres cumpriam o papel de moeda de troca entre famílias monárquicas.

As lutas femininas e feministas só se tornaram possíveis com o individualismo moderno, quando se começa a reconhecer na mulher a sua própria humanidade. Mas o machismo, como pensamento dominante, continua a operar entre nós. Os homens ainda nos vêem como suas propriedades e muito de seu sentido e sentimento de honra ainda é construído em relação ao feminino. Não é à toa que muitos namorados e maridos se sentem desrespeitados quando outro homem mexe com “sua” mulher. Ora, não teria sido ela, sobretudo, a desrespeitada? Infelizmente, ainda não somos consideradas plenamente sujeitos. Como é mesmo a piada que os homens fazem quando descobrem que um amigo será pai de uma menina? Lembrei: “De consumidor a fornecedor”.

Na lógica machista, inscrita inclusive no cristianismo, a mulher é sempre a encarnação de Eva: uma tentadora. Não por outra razão, muitas vezes quando estuprada, a mulher é ridiculamente acusada de ter provocado e seduzido o agressor, como se os homens fossem animais guiados pelos seus instintos e não seres humanos, por sua consciência. A mulher só escapa dessa imagem quando comparada à Maria. Mas aí é preciso lembrar que Nossa Senhora era virgem e, portanto, ideologicamente privada de seus próprios corpo e desejo, como são as mães na representação dos filhos. Ser filho da p. é ofensivo porque esse tipo de comportamento está fora do controle masculino. Só por isso.

Penso que há muito tempo a violência contra a mulher deixou de ser um problema (só) das mulheres. O problema é dos homens, que no seu delírio egoísta e possessivo são os que mais comentem crimes passionais. É uma vergonha que a sociedade tenha que ter criado a Delegacia da Mulher e a Lei Maria da Penha porque eles, na sua insanidade selvagem, nos olham como objetos a serem possuídos, consumidos e descartados. E é isso que a televisão não coloca no ar, não fala, não discute. Julgo que seria oportuno que Datenas, Ana Marias, Ratinhos e todos esses apresentadores que especulam a dor alheia, organizassem algo como uma “Caminhada dos Homens Contra a Violência à Mulher”. Seria maravilhoso ver centenas de músculos em marcha mudando o curso da história.

Sobre a vírgula

Sobre a Vírgula

Muito legal a campanha dos 100 anos da ABI
(Associação Brasileira de Imprensa).

Vírgula pode ser uma pausa… ou não.
Não, espere.
Não espere..

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!

Uma vírgula muda tudo.
ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

Detalhes Adicionais:

SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.

* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER…
* Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM…

Sobre a língua outra vez

Sou daquelas pessoas que falam “cheguei a casa” e não “cheguei em casa”. “Se eu o vir” e não “se eu ver ele”. “Prefiro dramas a comédias” e não “prefiro mais dramas que comédias”. Não é pedantismo. Gosto do português bem falado. Da norma culta. É claro que cometo erros de gramática. Todo mundo comete. Aliás, acho que a Regina Tonelli não deve cometer. Na verdade, se não fosse o corretor ortográfico do Word, estaria mal quanto à grafia correta das palavras. Não por falta das muitas cópias que fiz no caderno de caligrafia durante o primário. Eram pelo menos dez por cada erro. Mas depois do traumatismo craniano fiquei meio disléxica. Às vezes, troco os fonemas e nem percebo, principalmente o “V” pelo “F”. O médico disse que o meu cérebro é “malhado” e que as sinapses se reordenariam. Já melhorou bastante. Graças! É que sou também professora e fica feio escrever com barbarismos no quadro. 

Aliás, é exatamente sobre o uso e o ensino da língua que quero falar. A sociolingüística é o ramo da lingüística que estuda a relação entre a linguagem e a sociedade. Um de seus fundamentos é o respeito aos usos locais do vernáculo. Assim, os nossos “cabrunco”, “lamparão” e “de já hojinha” não seriam erros, mas variações locais que demonstram que a língua é absolutamente viva. As expressões regionais demonstram a criatividade e a riqueza da última flor do Lácio no “nonada” de um Guimarães Rosa ou no “ai, se sesse” de Zé da Luz. Portanto, a norma culta é apenas uma forma de usar a língua. Não a única. Mas talvez seja a que mais provoque preconceitos e constrangimentos. Prova disso são as “pérolas do vestibular” apresentadas por Jô Soares. Seria trágico se não fosse cômico, mas rimos da desgraça na educação brasileira.

É bastante triste e desolador perceber que candidatos ao ensino superior não apenas escrevem mal, mas também não ordenam logicamente o pensamento. Redações absolutamente no sense são produzidas por futuros bacharéis – os mesmo que nos tempos de Machado de Assis e Lima Barreto seriam os medalhões da elite brasileira – de modo que é de se perguntar como alguns alunos conseguem aprovação no vestibular. Mas as faculdades e universidades apenas revelam na ponta a precariedade da base. Julgo que não são apenas a parca formação e a má remuneração dos professores que estão em jogo. Também não sou pedagoga pra avaliar a substituição dos ditados, cópias e cadernos de caligrafia. Acho que seria raso atribuir a falência do português formal ao uso do MSN com seus “naum”, “eh” e “aki”. O que está acontecendo então? Será que você tem uma resposta, Regina?

Eu sempre digo aos meus alunos, futuros cientistas sociais ou profissionais de áreas afins, que seu único instrumento de trabalho é a língua porque, se não vão fazer cirurgias, operar máquinas, queimar neurônios com cálculos, têm obrigação de saber usar corretamente o português. Mas acho mesmo que todos aqueles que tiveram oportunidade de estudar deveriam saber (ou ter oportunidade de aprender) a norma culta para transitar sem medo entre o “ouro nativo, que na ganga impura a bruta mina entre os cascalhos vela”, como expressou o príncipe dos poetas, Olavo Bilac, no poema “Língua Portuguesa”. Os concurseiros sabem o quanto interpretação de texto e correção gramatical são imprescindíveis. E quem se embola em concordâncias verbais e nominais sabe bem do preconceito e da dificuldade que enfrenta no mercado de trabalho.  

Em outro artigo sobre o tema que publiquei aqui tempos atrás, defendo que é preciso separar a mobilidade da língua da ignorância a respeito dela. Infelizmente, parece que há uma inversão de certos valores e quem tenta falar segundo a norma culta é acusado de querer tirar onda e de ser verborrágico à maneira do professor Astromar Junqueira, o Rui Barbosa de Asa Branca, a cidade fictícia de Roque Santeiro. Às vezes, o preconceito existe à revelia. Sim, “Deixa que digam, que pensem, que falem”. Mas, Regina, sempre que eu errar, por favor me corrija!

Embromation

        Há certas inversões de regras e valores que podem macular uma carreira ou uma instituição por uma vida inteira. Um dos princípios fundamentais do Direito é a presunção de inocência, garantida pela Constituição Brasileira de 1988: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Desta forma, o acusado de ato ilícito tem o direito de ser tratado com dignidade enquanto não se solidificam as acusações, já que se pode chegar à conclusão de que o mesmo é inocente. Mas a inversão desse pressuposto é cotidianamente reproduzida, principalmente pela mídia. Uma vez lançadas reportagens sobre denúncias e investigações parece que os possíveis réus já foram condenados. Do antigo programa Linha Direta da TV Globo ao atual Brasil Urgente da Bandeirantes, a mídia tem exercido a função executória de criminalização de condutas e de legitimação de penalidades.

        Esse papel da mídia é denominado executivização.  Entende-se por executivização das agências de comunicação o fenômeno de abandono da postura informativa em favor da aplicação de um modelo ideologicamente marcado pela propaganda de idéias que atendem aos interesses de grandes grupos econômicos, bem como pela disseminação de que as garantias constitucionais dos criminalizados, como exemplo, o devido cumprimento do processo legal e a presunção de inocência, constituam um estorvo à efetividade do poder punitivo estatal. O apelo pela redução da maioridade é apenas a parte mais visível da campanha midiática por um Estado repressor, que, em termos de senso comum, é processado pela defesa da pena de morte e legitimação da atuação coercitiva das polícias.  

        A solução pra essa atitude completamente equivocada da mídia, no entanto, não está no controle externo dos veículos de comunicação, como propôs o governo Lula no seu Programa Nacional de Direitos Humanos. Qualquer tipo de censura à liberdade de expressão é uma ameaça ao Estado de direito democrático. A própria sociedade tem meios para controlar a imprensa através do senso crítico. Penso que a privatização das resoluções dos conflitos, entendendo-se por privado tanto a justiça popular feita com as próprias mãos, quanto o papel de polícia e juiz da imprensa quando denuncia, investiga, julga e pune, demonstra a precariedade do jurídico brasileiro. Não é apenas a falta de pessoal que faz a justiça ser morosa, mas também a infinidade de recursos em diferentes instâncias e a sempre polissêmica interpretação da lei.    

        É lógico que não estou defendendo aqui o fim das possibilidades de ampla defesa segundo as muitas interpretações e instâncias possíveis. Mas essa sensação do “ganhou, mas não levou” gera o sentimento de impunidade. E é por isso que, saindo da esfera penal, é importante refletir sobre a atualidade do processo de cassação da prefeita. Campos vive o drama das cassações desde o mandato de Campista e, mais uma vez, corre o risco de ver desestruturada sua máquina e cair na geléia geral do governo anterior. Não afirmo com isso que aprovo a atual administração. Mas deixar que Rosinha governe por quase dois anos pra depois retirá-la em pleno exercício é brincar com os eleitores. E pior ainda, o clima de insegurança que foi instalado na cidade nesta semana entre a decisão do TRE e o recurso levado ao TSE faz com que pensemos sempre em pizza. 

        Vejam o dilema: a prefeita tem todo o direito de se defender e recorrer. E a imprensa tem todo o direito de divulgar e opinar. Penso que caberia ao TRE e ao TSE mais agilidade. Não que eles devam julgar sem investigação e apuração dos fatos. Mas deixar que um governo se eleja, lance seus projetos e se estruture para depois desmontá-lo sem oferecer alternativa é deixar Campos mais uma vez num buraco a cada eleição mais parecido com um abismo. Resta apenas a esperança de que a executivização seja feita pela população nas urnas. Mas pra isso é preciso mais educação e menos ‘cinqüentinha’. Até que se prove o contrário, tudo sempre muda pra permanecer igual nessa ciranda de verdades e mentiras, de inocentes e culpados. Diz o ditado que “contra fatos não há argumentos”. Mas eu diria que, para o Direito, apenas contra fatos é que há argumentos. Sobretudo os que são pura embromation, como talvez tenha sido também esse texto.      

Amizade

Engana-se quem imagina que nossos sentimentos são inatos. O amor materno e o amor romântico, por exemplos, não nasceram conosco, mas foram construídos em nós.  No entanto, o fato dos sentimentos serem fabricações não significa que eles não existam. É lógico que o amor é real, mas amar é um aprendizado. E é através dessa pedagogia das emoções que a porta para o significado de sentir se abre. O sentimento só existe se tiver algum sentido no qual se depositam valores, estes também socialmente produzidos. Daí as variantes históricas e culturais de sentir.

A amizade é um tipo de relação social repleto de sentidos e de diferentes formas de sentir. A noção de amizade e o modo de vivê-la podem variar segundo a idade, o gênero, a classe e a situação social na qual se encontra o indivíduo. Em suas pesquisas sobre a amizade em ambientes urbanos, a antropóloga Cláudia Beatriz Rezende encontrou entre os ingleses a definição do amigo como a de alguém com que se pode agir naturalmente. O amigo, portanto, seria aquele que aceitaria as revelações de um eu espontâneo, das emoções e das intimidades do eu verdadeiro. A confiança seria a moeda corrente aí.

Mas se existe a idéia de um eu espontâneo e verdadeiro, é porque existe a sua contraparte: o eu performático. Esse não seria guiado pela confiança, mas por uma polidez que fornece as regras de comportamento (e, portanto, de contenção) no relacionar-se. O problema disso encontrado pela pesquisadora era que, a menos que a amizade tivesse uma memória fundada na juventude, a polidez comandava a sua formação inicial e, neste sentido, o desempenho seria sempre pautado pela condição de classe dos indivíduos. Regras de etiqueta, valores e visões de mundo impunham-se como reguladores das relações entre indivíduos da classe média e indivíduos da classe trabalhadora fazendo com que acabasse existindo uma certa imobilidade social das relações de amizade e uma homogeneidade de classe dos considerados amigos.    

A mesma pesquisa, realizada no Rio de Janeiro, obteve respostas um tanto diferentes. A confiança continuava válida como critério de uma verdadeira amizade. O amigo “mesmo” era identificado como alguém com quem se pode contar nas mais variadas situações. Mas para além dessa relação onde operam a espontaneidade e a verdade, o que determinava não era mais a polidez, como para os ingleses, e sim a afetividade fundada em algum tipo de identificação na qual o pertencimento de classe não importava. Para a antropóloga, “o que estava em foco neste discurso era um modo de pensar a conexão entre pessoas com características sociais distintas que, em outros contextos, poderiam estar separadas e hierarquizadas. Ainda que entre elas não existisse uma relação de amigos próximos, o idioma moral da amizade enfatizava que havia entre elas uma afinidade mais fundamental: a humanidade das pessoas”.

A antropologia brasileira tem insistido desde Sérgio Buarque de Holanda, passando por Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, até Roberto da Matta que o Brasil é uma sociedade relacional onde as regras de classe hierarquizam e segregam, mas podem ser manipuladas e invertidas em determinados contextos. Do meu ponto de vista, a amizade e os amigos por aqui existem dentro de um pêndulo onde o pólo positivo está no afeto, na confiança e no caráter e o pólo negativo está na lei: a letra fria tantas vezes dirigida apenas aos inimigos.

Copas e Ditaduras

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Ainda sou de uma geração que aprendia o hino nacional, da bandeira e da independência na escola. A gente formava fila e prestava continência. Não, eu não estudei “Moral e Cívica” na época da ditadura. Sou mais novinha que isso. Mas na escola pública onde fiz o ensino fundamental era assim, apesar das nossas reclamações juvenis. Hoje dou graças por isso, tanto porque não passo carão se tiver que cantar que o Brasil é “um sonho intenso, um raio vívido”, quanto porque amo minha pátria, amo essa gente, amo ser brasileira. Isso fica muito claro pra mim nos jogos da seleção, quando o hino é tocado. Não controlo o arrepio do corpo, o coração disparado e uma vontade louca de chorar. Toda Copa do Mundo é esse mico diante dos amigos.

Na última terça, no entanto, a coisa foi um pouco diferente. É que não agüentei ver o choro compulsivo do norte-coreano quando tocaram o hino de seu país e, de repente, desejei que a seleção brasileira só empatasse, ou se ganhasse, que não fosse por goleada. A Coréia do Norte é desde o fim da Segunda Guerra Mundial uma ditadura totalitarista stalinista. E foi aí que pensei que o líder Kim Jong-il poderia copiar os métodos de Udai Hussein, filho do ditador iraquiano Saddam Hussein, que mandava torturar os jogadores sempre que eles eram derrotados. Numa ditadura, manda quem pode e obedece quem tem juízo, ou melhor, quem teme pela própria vida, simplesmente porque não há qualquer direito garantido, sobretudo um dos mais fundamentais: a liberdade de expressão.  

Confesso que depois de pensar isso, não consegui assistir ao jogo sem lembrar da própria ditadura brasileira e no quanto o futebol foi usado para mascarar a repressão do regime militar. Tiniu em meus ouvidos aquela música alegrinha que sempre toca quando aparecem imagens da Copa de 70 embalando as fantásticas jogadas de Pelé, Rivelino, Tostão e companhia: “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, no meu coração. Todos juntos, vamos pra frente Brasil, salve a seleção! De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão. Todos ligados na mesma emoção, tudo é um só coração!”. Sob o milagre econômico à custa do crescimento da dívida externa e uma seleção tricampeã, um país em estado de exceção torturava e matava os oponentes ao sistema. O futebol foi usado como um grande disfarce da nebulosa condição política brasileira da época. E ai de quem questionasse, porque a resposta era em forma de slogan: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Não. Eu não penso que o futebol seja o ópio do povo. Não penso que a massa que vibra nas arquibancadas é a mesma que se silencia na política. No futebol se aprende que as regras valem para todos, que a competição deve ser justa e que o mérito é o que determina a vitória. E a política não deveria ser exatamente assim? Falta mesmo é engajamento político dos jogadores, já que eles formam opinião. Se o discurso da mídia for tomado como verdade, eu não quero supor que aqueles onze homens em campo sejam os melhores do mundo apenas porque recebem milhões de euros no exterior. Se eles representam o povo brasileiro, que sejam engajados, que vistam a camisa do país. Parece que a mesma alienação dos jogadores de 70 perdura hoje com o mandato de vereador de Túlio Maravilha e a possível candidatura do Peixe, à exceção da fala de Sócrates e dos projetos sociais de Leonardo e Bebeto.

Na verdade, o resultado de 2×1do Brasil sobre a Coréia do Norte me deixou aliviada. Não. Não é falta de nacionalismo. É algo que excede a isso. Foi o humanitarismo que me invadiu ao pensar naqueles jogadores sendo possivelmente ridicularizados, senão ameaçados, diante de seus compatriotas igualmente amarelos mais de medo que pela raça. A Copa deveria ser um grande evento para se discutir a situação política dos países, já que nos dias de hoje, graças aos que morreram, foram torturados ou exilados, podemos cantar razoavelmente destemidos “em teu seio, ó liberdade, desafia o nosso peito a própria morte”.

Ostras no Paraíba

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Na semana passada, como faço há oito anos, fui ao Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras. Muito frio, amigos, vinho e música da boa. O Festival já é considerado pelos críticos um dos melhores do país. E através dele, a cidade é divulgada mundo afora. Com toda razão! Rio das Ostras sempre teve um vasto potencial turístico em função de seus recursos naturais, mas até poucos anos atrás carecia de infra-estrutura. A Amaral Peixoto era horrorosa , lotada de cones e desníveis. A orla da Praia do Centro pouco organizada e Costa Azul nem de longe parecia com a beleza atual. A grana dos royalties melhorou muito a cidade ou pelo menos a parte aburguesada dela. É claro que nenhum governo é perfeito em lisura e, assim como na política campista, o prefeito de lá também sofreu processo de cassação. Mas não quero me perder. Não é de cassação que quero falar, mas da necessidade de criatividade nas políticas públicas.

            Quando o Festival foi lançado em 2002, muitas críticas foram dirigidas ao poder público e mesmo as reformas de urbanização estiveram na mira de investigações. Mas não é nesse mérito que quero entrar. Não que os fins justifiquem os meios, mas (se me permitem) hoje vou me conformar com o “rouba, mas faz” e com o “pão e circo”. É que ouvir jazz e blues à beira-mar, jantar num bom restaurante e dormir numa bela pousada, se por um lado quebra meu bolso, por outro, aquece a economia da cidade. O turismo há muito é uma grande indústria porque promove o comércio e os setores de serviços, gerando empregos diretos e indiretos. Parece tão óbvio, né?

            Parece, mas não é. E observo isso com o pesar da saudade. O inverno está chegando e há alguns anos atrás era tempo de nós, campistas, aproveitarmos o Femúsica, o festival de música clássica promovido pelo Centro de Cultura Musical de Campos em parceria com a Prefeitura. Lembro-me bem de como a cidade recebia gente do Brasil inteiro e artistas consagrados, entrando num clima mágico que só a arte pode nos proporcionar. As praças e os teatros ficavam lotados por um público nem tão entendido assim do erudito, mas que começava aprender a amar amando. Pois é irreal considerar que o “povão” só gosta de besteirol. O pianista Arthur Moreira Lima com seu projeto “Um piano na estrada” é prova disso.

            E foi falando dessas coisas todas que Jane Rangel, atriz, professora, amiga querida e eu conversamos uma tarde inteira sobre o que falta em nossa planície. Por que o Femúsica acabou? Por que não há eventos que promovam as potencialidades locais: um Festival do Chuvisco, por exemplo? Ou quem sabe um Festival do Petróleo? E para isso seria preciso embelezar a cidade ou pelo menos sua região central. Por que não reformar o Mercado Municipal, cujo prédio é tão antigo quando belo? Por que não transformar o Alberto Sampaio num parque realmente aprazível? Por que não dar função ao Alzira Vargas, atualmente vazio? Por que não enterrar a fiação do Centro para revelar os prédios históricos? Por que não despoluir e urbanizar as lagoas urbanas? E, por fim, por que não transformar a beira-rio aos moldes do Aterro do Flamengo para aproveitarmos o que temos de mais belo na cidade: o rio?

            É por amar tanto e querer tão bem a essa goytacá que às vezes a gente viaja. Viaja nas idéias e nos anseios porque viaja literalmente para outros lugares e observa o que é possível fazer com recursos tão generosos como os dos royalties. Embelezar Campos e promover a cultura através de festivais de qualidade não seria uma política elitista, como poderia sugerir os políticos populistas (e não populares) desta cidade. Isso geraria empregos e renda da boa para a população e talvez ela pudesse até mesmo encontrar Ostras no Paraíba. Não aquelas comestíveis, mas as mesmas que hoje degustam os riostrenses: desenvolvimento.

Guarus

Guarus

A geografia de uma cidade pode determinar a maneira como seus habitantes se identificam e se relacionam. A urbanização, as edificações arquitetônicas e os recursos naturais definem o distanciamento ou a proximidade entre as diferentes classes sociais. No Rio de Janeiro, as montanhas dividem a Zona Norte da Zona Sul. Esta última é representada como a região mais nobre da capital, rica em infra-estrutura, em monumentos históricos e em paisagens extraordinárias onde os cariocas elite e classe média se tornam “bonitos, bacanas e dourados”, enquanto a outra é qualificada como o subúrbio, lugar onde os moradores enfrentam o problema do transporte, das enchentes e da violência ao som de funk e pagode. Só que esta divisão classificatória está errada. É uma fabricação identitária essencializada que reforça certos estigmas. Será que todos os moradores de “além túnel” são pobres? E quanto às favelas à beira-mar? Definitivamente, o geográfico fundamenta identidades e relações sociais, mas está longe de instituir o real, tornando-se apenas um grande referencial de preconceitos.  

Aqui em Campos, o que reparte geograficamente a cidade é o Paraíba. É a partir dele que se define Guarus, esse lugar repleto de estigmas e visto por nós, moradores do outro lado, com a negatividade da ignorância. O primeiro indício dessa valoração é a referência generalizada que se faz da região. Enquanto aqui nos referimos aos bairros, separando com precisão cirúrgica a Pelinca de Nova Brasília, nosso olhar ultra-rio não separa o Jardim Carioca de Santa Rosa, misturando e denominando tudo como simplesmente Guarus. A outra impressão incorreta é imaginar que seus moradores são exclusivamente pobres, que possuem baixo grau de escolaridade e que seu gosto cultural é fundamentalmente popular, como se do lado de cá não existissem favelas, gente desinformada e bailes funk. Sobre a rotulação territorial, se fabrica uma distância social tão icônica quanto estereotipada.

Essa minha percepção surgiu numa mesa de bar. Sentada com amigas “de Guarus”, falava de um chocolate suíço que adoro e perguntei se numa loja de lá vendia dele. A resposta foi carregada pela representação essencializada que se faz da região: “você acha que o povo de Guarus compra chocolate suíço?”. A distinção de gosto, como nos revelou o sociólogo francês Pierre Bourdieu, é um instrumento de poder e dominação. O gosto faz com que os membros de uma mesma classe se identifiquem, devido à unidade (ou semelhança) de seus interesses. Simultaneamente, ele afasta os membros de outras classes, que não compartilham dos mesmos interesses. E esse gosto passa a ser visto como algo natural daquela classe, gerando diferenças intransponíveis. É o velho jargão do “gosto não se discute”. O gosto é visto como algo inato e não como a internalização de uma construção social.

Assim, as diferentes classes  se identificam por seus gostos em comum e esses gostos passam a ser a marca de determinada classe. De modo geral, as classes altas são as detentoras da cultura legitimada, as médias aspiram possuir o gosto da classe alta (embora encontrem barreiras que as transformam em emergentes) e as classes baixas opõem-se ao gosto das altas. Essa oposição entre os gostos das classes alta e baixa é fruto de uma intenção clara de distinção entre elas. A dominação exercida pela classe alta através da distinção de gosto se faz pelo uso da violência simbólica, que desqualifica o popular não o reconhecendo esteticamente.

A questão que proponho aqui é: como essa diferenciação aplicada ao geográfico é vivida nas relações dos habitantes de uma cidade? Penso que determinadas distinções de gosto são pensadas em referência ao territorial. Imaginar que os moradores de Guarus não comprariam chocolate suíço apenas porque moram em Guarus é uma estigmatização que associa o estilo de vida popular ao território. Esse tipo de caracterização resulta na produção de categorias de acusação, permitindo que mesmo em proximidade territorial não se exclua a distância social. Mas é importante pensar também na contraparte disso: eu moro do lado direito do rio e adoro comer peixe frito no Mizinho.