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A mulata
A mulata Vai chegando o carnaval e a mulata globeleza começa a aparecer diariamente nos intervalos da programação. Uma série de concursos é promovida para a escolha de passistas das escolas de samba e, no Saara, em pleno centro do Rio de Janeiro, todo ano é eleita a garota da laje. O que essas personagens podem nos revelar da visão do feminino no Brasil? E o que pode nos ensinar sobre preconceitos raciais e sobre misoginia? A mulata é um exemplo clássico de transformação de uma categoria racial em categoria ocupacional. Ela é um subtipo específico dos variados espectros de mestiçagem: é a mistura do branco com o negro. Deve ter o corpo volumoso e num formato de curvas tipo violão, e necessariamente saber sambar. Além disso, precisa se apresentar de um jeito que seduza o público, que o faça desejá-la, seja sexualmente, seja como um padrão de beleza. Mas ela não pode ser vulgar. Pelo contrário, precisa demonstrar todo o seu profissionalismo e se desvincular de qualquer associação com a prostituta. A mulata deve ser simbolicamente um tipo ideal da brasileira. Até aqui, tudo bem. As mulatas são de fato maravilhosas. E qual é o problema então? É que o samba no pé da mulata é atribuído à sua raça e isso é feito, como no inferno, com a melhor das intenções. É como se sambar fosse um dom natural sem qualquer necessidade de aprendizado. E como determinadas ideologias dominantes estão disseminadas no senso comum, as próprias mulatas reproduzem esse argumento. Mas o que tem demais se a capacidade de sambar é considerada um dom natural? Aí entra a pedagogia do racismo. É o mesmo que dizer que o negro nasceu pra jogar futebol ou tocar instrumentos de percussão. Se ele nasce com esses dons, isso pode significar que ele não terá talento para outras coisas. Não poderá ser campeão de natação, nem um grande pianista. Ou tudo o mais que quiser. Essa atribuição racial a determinadas ocupações forjam, sob uma roupagem positiva, um imenso racismo. Se a mulata já nasce sambando, pra muita gente isso pode significar que ela não serve pra dançar balé. Esse discurso nega a plasticidade humana e, sobretudo, as construções históricas (e não naturais) de determinados papéis. Aliás, lembrando um samba antigo que dizia: “o seu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor. Mas como cor não pega, mulata eu quero é seu amor”, penso no quanto a fabricação social de certos tipos femininos é feita a partir de uma concepção misógina, isto é, com desprezo à mulher. Isso porque elas são tornadas objetos e não sujeitos e, como se sabe, objetos não têm agência, nem ação. São feitos para serem consumidos. No samba, a mulata serve para o “amor”, ou seja, para o sexo e não para o casamento, porque a cor não “pega” como se pegam doenças. Mulheres uvas e melancias existem para ser simbólica, e talvez literalmente, comidas. Essa coisificação da mulher é a constatação mais conspícua da persistência da dominação masculina. Ao refletir sobre a construção social da mulata, lembro-me de uma Simone de Beauvoir (1908-1986) que dizia em seu livro O segundo sexo: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Gostaria de estender a formulação dizendo que “nenhuma mulher nasce mulata, mas torna-se mulata”. É uma pedagogia e não a natureza que a constrói, caso contrário, mesmo sem o menor repertório, tendo avô negro e avó branca, eu bem que poderia me candidatar num desses concursos. 8 comentários paraA mulata |
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Quanto partidarismo bela Fernanda! Por certo um filtro mais calibrado à sua abordagem antropológica mereceria prosperar.
Regozijar-nos de uma herança social e cultural estabelecidas sob a égide das 3 matrizes étnicas que formaram nosso povo não pode e nem deve entrar na seara de uma pretensa discussão rasa de racismo quando o próprio tipo ideal objeto de crítica em seu texto é a própria negação de raça. Pois somente um país de vira-latas, sem qualquer orgulho de raça ou etnia pode gerar seres tão belos como a mulher que assina o texto deste blog.
Rômulo Barreto da Mata
PREZADA FERNANDA,
TALVEZ VALESSE A PENA EXPERIMENTAR! CONSIDERANDO SUA BELEZA ESTÉTICA, SIMPATIA E CULTURA, CERTAMENTE CONSEGUIRIA OCUPAR LUGAR DESTACADO. ANO NOVO: NOVAS ESCOLHAS?!?!
ABRAÇOS,
SANDRO BICHARA.
tenho certeza que não faria feio. hummm, já estou até vendo.adoraria ver o rebolado do seu ziriguidun estruturalista, telecoteco dialético, e por derradeiro, o balacubaco misógino.
a idéia do texto é muito boa mas ao usar algumas palavras difíceis, havendo a necessidade de se recorrer ao Aurélio, me parece um tanto quanto preconceituosa, dando a entender que a leitura é apenas para alguns ditos inteligentes e cultos.
É muito bom ver quando um texto gera polêmica. Aliás, discutir idéias é sempre algo muito profícuo. Algumas consideraões a partir dos comentários:
1. Espero que minha escrita não seja demasiadamente empolada, pois me recuso à verborragia acadêmica. Mas abrir o dicionário às vezes não faz mal nenhum. Pelo contrário, penso que o tamanho de nosso mundo é o tamanho de nossa linguagem;
2. Não pretendo participar de qualquer concurso. A frase final foi apenas uma ironia para negar a construção natural da mulata, pois sendo eu uma mulher mestiça, não tenho qualquer talento para tal papel;
3. Pensar a construção social da mulata é refletir sobre o mito da democracia racial, afinal, o próprio Gilberto Freyre se referia a ela.
Agradeço a todos pela leitura e pelos comentários.
Prezada Fernanda,
Aproveitando este início de ano e reflexões singulares registradas neste tópico: A Mulata, poderíamos até dizer, de certa forma, raras neste espaço virtual, onde percebemos poucas participações sociais, pensando e contribuindo com suas opiniões éticas e construtivas, referentes aos diferentes temas propostos, pelas diferentes personalidades atuantes neste veículo de comunicação social singular em nossa região, gostaria de encaminhar algumas críticas/questões construtivas, com sua licença.
Qual(is) seria(m) o(s) objetivo(s) deste blog? Divulgar aos leitores da FM virtual informações atualizadas? Estimular reflexões sobre temas atuais, ainda destituídos de consensos sociais adequados? Para que(ais) tipo(s) de leitor(es) os temas são direcionados?
Estes questionamentos parecem emergir das observações registradas pelos leitores e participantes, logo acima. Estes questionamentos parecem estímulos reflexivos úteis a ti, autora do blog, e também para todos nós, demais leitores dos teus textos.
Certamente diferentes pessoas de nossa comunidade acessam os diferentes blogs e suas informações. Analisam-nas, conforme suas habilidades intelectuais e, alguns expressam suas contribuições, outros abdicam. Talvez por não compreender adequadamente o conteúdo expresso [“excesso de verborragia acadêmica?”]. Talvez por medo ou vergonha de alguma retaliação, censura do autor/instituição, conforme a forma escolhida para expressar-se. Ou ainda, desmotivação pessoal, frente a tantos complexos desafios, obstáculos cotidianos em nossas vidas, os quais nos consomem grandemente nossas energias e acabamos tendendo à inércia social. O que parece interessar a muitos líderes nacionais, em detrimento social amplo.
Nosso maior líder nacional, não raramente, expressa em seus discursos, nada “empolados”, a desnecessidade de estudos muito complexos para conquistarmos vitórias na vida. Usando como exemplo singular: sua própria história de vida.
O que para muitos é compreendido como bom. Assim, fica mais fácil. E para outros: muito ruim, nacionalmente. Depende da compreensão e estímulos pessoais individuais. Os quais contribuem para a construção de nossa realidade nacional. A qual prospera em alguns setores e não avança, ou pior, retrocede noutros, principalmente nos setores da saúde e educação. Basta recordarmos que ocupamos o septuagésimo lugar no IDH.
Portanto, a forma como expressamos nossas idéias socialmente, pode contribuir para o progresso ou retrocesso social. Pode contribuir para a expansão da qualidade de vida humana, ou influenciar negativamente sobre ela. Buscar o dicionário quando deparamo-nos com palavras desconhecidas, certamente é uma atitude salutar sob o ponto de vista acadêmico, educacional.
Mas, considerando a possibilidade de expressarmos nossas idéias para pessoas algo desmotivadas [por diferentes razões que não nos caberia, aqui, julgar/debater], não estaríamos dificultando o estímulo reflexivo social sobre determinados temas tão interessantes, e que ainda demandariam debates sociais coletivos em busca de revisões de suas construções sociais e, talvez assim, ingressarmos, estabelecermos uma nova proposta de convivência social?
Sob outra perspectiva, considerando o tamanho de nosso mundo segundo o tamanho da nossa linguagem, possivelmente o estaríamos reduzindo drasticamente. Haja vista a reduzida capacidade/compreensão social da linguagem escrita. Problema social importantíssimo, na área da educação pública, decorrente das diferentes falhas do sistema educacional, já muito bem apontadas, descritas e debatidas nos diferentes cenários acadêmicos nacionais, com contribuições singulares de diferentes autores e estudiosos sobre o assunto, dentre eles: Paulo Freire.
Talvez considerarmos o tamanho do mundo em que habitamos, tomando como parâmetro a amplitude de nossos pensamentos, sonhos, desejos e expectativas seja mais adequado. Pois, nossos sonhos e desejos podem motivar-nos a adotar as atitudes necessárias para as mudanças sociais ainda tão necessárias [como nos diz Schopenhauer em sua obra: O mundo como vontade e representação.].
E, desta forma, construirmos coletivamente, eticamente, solidariamente, uma nova realidade social, mais justa, verdadeiramente democrática e feliz.
Finalizando, gostaria de sugerir-te a leitura do texto: “Negociando a subjetividade de Mulata no Brasil”, das autoras, Angela Gilliam e Onik’a Gilliam, que pode ser acessado no site:
http://www.ieg.ufsc.br/admin/downloads/artigos/10112009-125509gilliangillian.pdf
Destaco, por fim, apenas uma breve passagem do texto:
“O que me atrai e, eu acho, outros estudiosos a escrever pessoalmente é um desejo de abandonar a metalinguagem alienadora que fecha, em vez de abrir, as portas da academia para todos aqueles que queiram entrar. Escritura pessoal representa um esforço sustentado para democratizar a academia.”
Fraterno abraço!
Sandro Bichara.
Prezado Sandro,
a dica do artigo foi preciosa! Muito interessante, sobretudo na discussão sobre o cabelo. Quanto ao mundo e às palavras, penso que não se pode desejar aquilo que não se nomeia, ainda que o Verbo exceda à norma culta.
Forte abraço com minha admiração!
Fernanda Huguenin
Huguenin! Hugueniiiin!!