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Artigo do domingo — Das Arábias ao Brasil

 

 

Entre os maiores filmes já feitos, “Lawrence da Arábia” (GBR, 1962) é a obra prima do inglês David Lean, mestre do cinema. Baseia-se no livro “Os sete pilares da sabedoria”, na qual o arqueólogo, militar, espião e arabista Thomas Edward Lawrence conta, em narrativa épica e impressionante riqueza de detalhes, como ele mesmo tomara “nas mãos essas ondas de homens”, ao comandar a bem sucedida Revolta Árabe contra o domínio do Império Turco Otomano no Oriente Médio, durante a I Guerra Mundial (1914/18).

Do filme, se pode dizer que conquistou com justiça sete estatuetas do Oscar, incluindo melhor longa, diretor e fotografia — esta assinada por outro gênio da sétima arte, que imortalizaria as cores devassadas pela luz do deserto: Freddie Young. E, num filme em que queimam como o sol árabe as interpretações de Anthony Quinn (Auda abu Tayi), Omar Sharif (Ali ibn el Kharish), Alec Guinness (príncipe Faiçal), Jack Hawkins (general Allenby), Claude Reins (Dryden) e Anthony Quayle (coronel Harry Brighton), ninguém brilhou mais do que Peter O’Toole na pele do tenente T. E. Lawrence, mesmo não levando o Oscar de melhor ator, numa das injustiças mais flagrantes da história de Hollywood.

Do livro, pode-se dizer que tem muita similaridade com o nosso “Os sertões”, de Euclides da Cunha. Este, como Lawrence, impressionaria a qualquer sábio grego ou florentino pela gama pré-socrática, renascentista dos seus conhecimentos. E foram dois autores igualmente lacerados entre a sensibilidade de poeta e a rigidez militar, a prevalência do cientista ou do romancista, a lealdade à pátria ou a admiração por quem a ela se opôs com a justiça das próprias circunstâncias.

Confluíram homem e meio, séculos XIX e XX, na mesma aridez solar banhada de sangue e barbárie no sertão da Bahia, na Guerra de Canudos (1896/97), maior guerra civil brasileira, ou na Península Arábica, durante a I Guerra Mundial. Cantaram como heróis gente de pele queimada de sol e alma esbordada de fé, cristã do sertanejo e muçulmana do beduíno, que tomaram em armas para tentar romper grilhões e escrever a própria história. E esta seria a imortalizada partir do testemunho de quem veio de fora: Euclides, militar reformado e enviado como correspondente pela Folha de São Paulo; e Lawrence, com papel de protagonista naquilo que narrou.

Intelectualmente brilhante e politicamente conservador como Lawrence, enquanto Euclides morreu convertido ao socialismo, o primeiro ministro inglês Winston Churchill, por seu papel decisório na II Guerra Mundial (1939/45), seria depois definido por John Kennedy como “o homem que uniu a língua inglesa e enviou à guerra”. E o presidente estadunidense falava do mesmo Churchill que, sobre “Os sete pilares da sabedoria”, escreveu: “Se fosse obra de mera ficção, viveria enquanto o inglês fosse falado em algum recanto da Terra”. Só que foi tão real, leitor, quanto aquilo narrado em “Os sertões”, ou eu e você pensamos ser agora.

Ponto de partida dos brilhantes feitos militares de Lawrence, no livro e no filme, foi a tomada da cidade portuária de Akaba, na atual Jordânia, cuja importância estratégica na Península Arábica corresponde à desta para quaisquer exércitos que pretendam se deslocar entre África e Ásia. Todos os armamentos da Turquia para manter Akaba sob seu domínio estavam apontados para o mar, já que os turcos julgavam ser impossível transpor o deserto do Nefud, espraiado por mais de 200 km às costas da cidade.

Pois Lawrence não só cruzou o Nefud, no lombo de dromedários, como convenceu do outro lado que a tribo beduína dos Howeitat se juntasse a ele, em sua investida de surpresa contra o Império Turco. Não é exagero falar que a conquista de Akaba, a partir do inesperado ataque, foi o primeiro passo da queda definitiva do domínio otomano sobre o Oriente Médio, que já durava quase meio milênio.

Dos árabes de Lawrence à realidade dos sertanejos de Euclides, que o jornalista Paulo Francis dizia ainda corresponder a todo o Brasil, à exceção da Região Sul, inegável que nem o PT presidente da Dilma Rousseff, nem o PSBD de Aécio Neves, estavam prontos para o advento Marina Silva (PSB), ungida candidata pelo acaso, em meio à comoção nacional pela tragédia que matou Eduardo Campos, de quem era vice e herdou naturalmente a candidatura à presidência.

Já líder da corrida eleitoral de outubro, segundo a pesquisa Datafolha divulgada na última sexta, num empate exato nas intenções de voto com Dilma (ambas com 34%, enquanto Aécio teria 15%), Marina bateria facilmente a presidente no segundo turno, com 10% de vantagem (50% a 40%). De fato, quem se der o prazer de (re)assistir ao filme ou (re)ler o livro, constatará que a ascensão da candidata lembra mesmo a carga fulminante com que Lawrence tomou Akaba (confira o vídeo que abre esta postagem) para dali derrubar o Império Otomano.

Como os turcos não esperavam o ataque por terra, Aécio e Dilma não estavam preparados para Marina. O primeiro tinha se programado para atacar os quatro anos do governo Dilma, com os já banalizados escândalos de corrupção petistas, sobretudo na Petrobras, e, ainda pior, com a volta da recessão econômica no Brasil, agora oficializada pela queda de 0,6% no PIB do segundo trimestre de 2014, que o ministro Guido Mantegna, num misto de comédia pastelão e humor negro, tentou atribuir ao cenário internacional, à Copa do Mundo e à estiagem no país.

Por sua vez, a presidente Dilma se esforçava não só para completar o raciocínio de cada frase que é obrigada a emitir publicamente, como para centrar sua campanha na comparação dos 12 anos de administração federal do PT, com os oito anos anteriores de Fernando Henrique Cardoso. Como se tudo que veio a partir de Lula (com o ex-tucano Henrique Meirelles no comando do Banco Central) pudesse ter existido sem o Plano Real, implementado a despeito do voto contrário da bancada petista no Congresso, quando FHC ainda era ministro da Fazenda de Itamar Franco.

Ciente de que a estabilização econômica do país, ora em risco com Dilma, se deve à equipe liderada por FHC ainda ministro e depois presidente, assim como a ampliação das projetos de inclusão social ao governo Lula, naquilo que já é política de estado, não mais de governo, Marina deu crédito a um e ao outro também, no primeiro debate dos presidenciáveis, promovido pela TV Bandeirantes, na última terça (26). Ao agir diferente do que costumam fazer petistas e tucanos na bipolaridade em que dividem o poder no Brasil há quase 20 anos, ganhou simpatia e votos, inclusive entre quem estava indeciso, iria anular, ou tencionava optar por Dilma, Aécio e até o pastor Everaldo.

Ao que tudo indica, salvo um cataclismo, como foi a morte de Eduardo, tudo indica que Marina será a próxima presidente do Brasil.

Não se pode dizer que o que veio no Oriente Médio, após a expulsão dos turcos, anime como exemplo, sobretudo para um país que, independente do resultado das urnas, virará o ano em recessão econômica, com preços da gasolina e da energia elétrica dolosamente defasados em ano eleitoral, na típica atitude petista de tentar varrer sua própria sujeira para debaixo do tapete de 200 milhões de brasileiros. Mas talvez já tenha passado mesmo a hora de se achar uma alternativa às duas maiores incompetências da política brasileira nas últimas duas décadas: a do PSDB, para ser oposição; e a do PT, para ser governo.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

Pesquisas

CHARGE 28-08-20'4

 

Obras do berço

CHARGE 26-08-2014

 

Enquanto isso no berço da educação…

CHARGE 22-08-2014[1]

 

Um balde de …

CHARGE 20-08-2014

 

Nas mãos da justiça

CHARGE 18-08-2014

 

Aluizio em Brasília para interligar transporte de carga em Macaé por terra, céu e mar

Ponto final

 

Prefeito de Macaé, Dr. Aluizio (PV) tem agenda marcada em Brasília, na próxima quarta, dia 20, quando se reunirá com o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão (PMDB). Na pauta, os pleitos pela ampliação da malha viária do município, através da construção e ampliação de estradas, da instalação do novo porto e da dotação de uma pista de carga no aeroporto.

O projeto é ambicioso e visa interligar o transporte de cargas por terra, mar e ar em Macaé. Aluizio levará consigo empresários e industriais, incluindo representantes das empresas gigantes de offshore instaladas no município, que atuam no setor do petróleo. A intenção do prefeito é obter do governo federal um tratamento que reconheça a importância estratégica e econômica da sua cidade, porta de entrada no continente de quase toda atividade petrolífera na Bacia de Campos, a reboque da Petrobras.

Coordenador regional da campanha de Luiz Fernando Pezão (PMDB) para governador, Aluizio também apoia a presidente Dilma Rousseff (PT), em sua tentativa de reeleição. Apesar de estar engajado e acreditar na vitória de ambos, o estilo agregador do prefeito macaense, respeitoso com os adversários e avesso a confrontos desnecessários, tende a manter os caminhos do seu município abertos com o governo estadual e federal, independente dos resultados da urnas de outubro (e novembro).

 

Publicado na coluna Ponto Final, na edição de hoje da Folha.

 

 

Perda política

CHARGE 14-08-2014[1]

 

Sonhando acordado

CHARGE 12-08-2014

 

Seca do Paraíba (II)

CHARGE 08-08-2014