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Artigo do domingo — Acabou o milho, acabou a pipoca?

 

Até as últimas duas semanas, quem julga entender algo de política afirmava, sem medo de errar, que o pleito para governador do Rio neste ano repetiria a eleição à Prefeitura de Campos, em 2004, e a suplementar, em 2006. Em ambas, hoje deputado estadual do PR em busca de reeleição, Geraldo Pudim só venceu o primeiro turno para refugar no segundo, vencido por Carlos Alberto Campista e depois por Alexandre Mocaiber.

No caso, o deputado federal Anthony Garotinho (PR) repetiria Pudim se confirmasse sua própria liderança ao primeiro turno do governo do estado em outubro próximo, mas acabasse superado nas urnas de novembro pelo segundo colocado do mês anterior. E é exatamente o que as pesquisas projetam tanto se seu adversário no segundo turno for o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), quanto o senador Marcelo Crivella (PRB).

Na última consulta Ibope da corrida ao Palácio Guanabara, divulgada no dia 9 deste mês, Garotinho ainda mantinha a dianteira no primeiro turno, com 26% das intenções de voto, mas já em empate técnico com Pezão, que apareceu apenas um ponto percentual atrás, enquanto Crivella manteve seus 17%. Todavia, na mesma amostragem, o político da Lapa perderia de 40% a 33% para Pezão no turno final — no qual não passaria do empate técnico de 34% a 33%, caso o adversário fosse Crivella.

Quanto à pesquisa Datafolha, liberada no dia 10, Pezão já apareceu em empate exato com Garotinho, ambos com 25%, para o pleito de outubro, ao qual Crivella registrou 19%. E no segundo turno? Garotinho tomaria um vareio tanto de Pezão (35% a 47%) quanto de Crivella (33% a 45%), perdendo para ambos pela mesma considerável diferença de 12 pontos percentuais.

Mas se Garotinho é derrotado em quase todas as simulações do segundo turno estadual em 2014, nos dois principais institutos de opinião brasileiros, por que não se cumpriria a analogia com a derrota final de Pudim nas eleições municipais de 2004 e 2006? Simples: Garotinho corre o risco não só de perder a liderança da corrida ao governo fluminense para Pezão, ainda no primeiro turno, como de acabar fora do segundo, sendo ultrapassado na reta final também por Crivella.

Menos conceituado do que Ibope e Datafolha, que não soltaram novos números ao governo do Rio na última semana, o Gerp divulgou no dia 16 a pesquisa mais recente da disputa. Nela, Garotinho (23%), Pezão (21%) e Crivella (20%) apareceram quase juntos na escadinha do empate técnico no primeiro turno. No segundo, o político de Campos também perderia as simulações tanto com Pezão (30% a 32%), quanto com Crivella (30% a 35%).

Com 12% das intenções de voto no Datafolha e 9% no Ibope e no Gerp, o senador Lindberg Farias (PT) ainda parece distante dos líderes na corrida a governador registrada pelas pesquisas. Fora delas, no entanto, o petista tem dado as demonstrações mais recentes de que Pezão hoje parece ter mais garantias de acesso do segundo turno do que Garotinho.

Não bastasse ter abertamente trocado o governador do PMDB pelo deputado do PR como principal alvo das suas críticas, seguindo o conselho que recebeu pessoalmente do ex-presidente Lula, o próprio Lindberg deixou clara sua análise do atual quadro eleitoral, em entrevista exclusiva publicada hoje na Folha (aqui): “Garotinho está caindo nas pesquisas e não tem força para enfrentar Pezão. Tenho condições de crescer e tirar Garotinho do segundo turno”.

Pelo menos em relação à primeira afirmação, o petista parece prenhe de razão na comparação das duas últimas pesquisas de cada instituto, na qual o crescimento de Pezão e a queda de Garotinho surgem como tendências inequívocas. O primeiro subiu pelo Ibope (19% a 25%), Datafolha (23% a 25%) e Gerp (15% a 21%), enquanto o segundo caiu nos três: 27% a 26% (Ibope), 28% a 25% (Datafolha) e 25% a 23% (Gerp). Fungando ao cangote de ambos, apesar de ter mantido os mesmos 17% nas duas últimas consultas do Ibope, Crivella cresceu pelo Datafolha (de 18% para 19%) e pelo Gerp (de 18% para 20%).

Leitor de pesquisas como poucos, ninguém está mais ciente da realidade do que Garotinho. Não por outro motivo, após ficar sem postar em seu blog por quase 24h, entre os dias 10 (quando foi divulgada a última pesquisa Datafolha) e 11, além de cancelar vários compromissos nos dias seguintes, sob alegação de “virose”, o candidato do PR ressurgiu bem ao seu estilo, no dia 18, numa entrevista ao vivo no RJ TV, onde disparou sua conhecida metralhadora giratória contra as Organizações Globo.

Na aparente impossibilidade retórica de responder às perguntas da jornalista Mariana Gross sobre processos contra ele e Rosinha, por conta da administração desta no governo do estado, Garotinho “respondeu” acusando a Globo de sonegação fiscal na compra dos direitos de transmissão dos jogos da Copa do Mundo de 2002. Para quem só é capaz de enxergar o mundo pelos antolhos do maniqueísmo, foi uma reação contundente (e merecida) contra a toda poderosa “Vênus Platinada” dos irmãos Marinho, ao estilo do ex-governador Leonel Brizola (1922/2004).

Todavia, para quem tem capacidade de análise para identificar o dois somado ao outro, projetando o quatro como resultado final da equação, soa meio óbvia a lembrança de que as denúncias de Garotinho no RJ TV já vinham sendo feitas, não é de hoje, pela Rede Record, principal concorrente da Globo e propriedade de Edir Macedo, tio de Crivella. Nem é preciso, pois, estar tomado da onisciência do espírito santo para identificar o sinal.

Na melhor das hipóteses, se estiver no segundo turno com Pezão, Garotinho tenta construir uma ponte “evangélica”, senão capaz de conquistar o apoio declarado de Crivella, suficiente ao menos para que este libere os fieis eleitores da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Na hipótese menos boa, caso não consiga estancar sua queda e acabe fora do segundo turno, só restará a Garotinho orar para lá estar o mesmo Crivella, que passaria a ser sua possibilidade de salvação do limbo político no estado do Rio.

Se até 15 dias atrás o que Garotinho mais tinha a temer era ser o Pudim de uma década atrás, ele tem só mais duas semanas, até 5 de outubro, para tentar exorcizar de si e dos seus um medo muito maior: ser o Paulo Feijó de 2004, quando o deputado federal hoje no PR liderou boa parte da corrida à Prefeitura de Campos, mas foi atropelado na reta final e acabou fora do segundo turno.

Por ora, diante da expectativa de virada de Pezão já nas próximas pesquisas, o clima reinante nas hostes do PR goitacá e fluminense é o de “acabou o milho, acabou a pipoca”.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

 

É brincadeira

CHARDGE 18-09-2014

 

E na educação de Campos…

CHARGE 17-09-2014[1]

 

Azedinha

CHARGE 16-09-2014[1]

 

Artigo do domingo — Não passarão?

Guermica, de Pablo Picasso, pintado em Paris, em 1937

Guermica, de Pablo Picasso, pintado em Paris, em 1937

 

 

“No, la pintura no está hecha para decorar las habitaciones. Es un instrumento de guerra ofensivo y defensivo contra el enemigo” (“Não, a pintura não está feita para decorar apartamentos. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo”). As palavras duras de Pablo Picasso (1881/1973) só não são mais fortes do que as imagens monocromáticas do famoso painel “Guernica”, considerado uma das suas obras primas, assim como do próprio movimento cubista do qual o pintor espanhol foi o principal expoente.

Cidade do País Basco, província ao norte da Espanha, Guernica foi completamente destruída pelo bombardeio da Luftwaffe, a força aérea de guerra da Alemanha nazista, que usou a Guerra Civil Espanhola (1936/39) como tubo de ensaio para sua tática da blitzkrieg (guerra relâmpago), com a qual conquistaria quase toda a Europa, antes de ser derrotada na II Guerra Mundial (1939/45). O horror de uma guerra mecanizada e sem pudores contra populações civis indefesas, que quedou dos céus sobre Guernica em 1937, foi o que Picasso retrataria no mesmo ano, como prenúncio daquilo que se abateria sobre todo o mundo, literalmente, nos anos seguintes.

Com o mesmo empenho com que Picasso se opunha ao massacre de Guernica e aos fascistas que o perpetraram, outro pintor de menos talento, Adolf Hitler (1889/1945), feito Führer (“Líder”) da Alemanha nazista após fracassar como artista, apoiava o general espanhol Francisco Franco (1892/1975) no golpe militar contra o governo eleito democraticamente pelo povo da Espanha.

Com um oceano, um hemisfério, um continente e alguns anos de diferença, outra democracia de sangue latino vai também definindo seus quadros às vésperas de outras eleições. No Brasil, a presidente Dilma Rousseff (PT) mostra ainda ter lenha para queimar. Não só suportou a “blitzkrieg” eleitoral de Marina Silva (PSB), como já apresenta sinais de recuperação junto ao eleitor.

Se no Ibope da semana anterior, divulgado em 3 de setembro, Dilma tinha 37% das intenções de voto, contra 33% da principal concorrente, na nova amostragem do instituto, liberada no dia 12, a presidente cresceu dois pontos, aparecendo com 39%, enquanto Marina caiu para 31%, perdendo os mesmos dois pontos. E a vitória clara de Marina no segundo turno, prevista pelo Ibope anterior (46% diante dos 37% da presidente), se transformou num empate quase absoluto, no qual Marina hoje tem 43% (queda de quatro pontos) contra 42% de Dilma, que subiu consideráveis cinco pontos no mesmo curto espaço de tempo.

Esse movimento de recuperação de Dilma e queda de Marina também foi registrado no Datafolha. Na comparação das duas últimas pesquisas do instituto, divulgadas em 3 e 10 de setembro, se o empate técnico entre as duas ex-ministras de Lula ficou mantido no primeiro turno (Dilma tinha 35% contra 34% de Marina, e agora tem 36% contra 33%), a vitória antes folgada da candidata do PSB no segundo turno (48% contra 41% da presidente) se transformou em dúvida exata, com as duas apresentando agora os mesmos 47% de intenções de voto.

Diferente de Dilma, quem tem demonstrado dificuldades em reagir ao avanço rápido do principal adversário, é o deputado federal Anthony Garotinho, candidato do PR contra o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB). Entre as duas últimas pesquisas do Ibope, liberadas respectivamente aos dias 2 e 9 deste mês, Pezão cresceu impressionantes seis pontos, passando de 19% a 25%, enquanto o político da Lapa, para não dizer que está estagnado, perdeu um ponto: tinha 27% e caiu para 26%. E, mais grave, o empate exato em 35% que o Ibope apontava no segundo turno entre ambos, se transformou em previsão de vitória final relativamente fácil para Pezão, que subiu para 40%, enquanto Garotinho agora só tem 33%.

No Datafolha, entre as pesquisas divulgadas em 4 e 10 de setembro, o quadro se desenha ainda mais desanimador ao candidato do PR. No primeiro turno, Pezão cresceu dois pontos, passando de 23% a 25%, enquanto o campista caiu de 28% para 25%. Mas é nas simulações de segundo turno que a situação se agrava para Garotinho, que caiu de 36% para 35%, enquanto o atual governador subiu de 45% para 47% das intenções de voto, abrindo uma considerável diferença de dois dígitos na decisão final.

De fato, o impacto da última projeção do Datafolha foi tão forte, que o próprio Garotinho, no mesmo dia 10 em que a pesquisa foi divulgada, pareceu atordoado ao ficar sem postar nada em seu blog, desde o final da manhã daquele dia, só voltando a emitir sinal virtual de vida quase 24 horas depois, quando foi obrigado a admitir publicamente o crescimento de Pezão. E os sinais de desânimo, bem como as ameaças para tentar conter a debandada no grupo, não passaram despercebidos nas expressões e discursos do comício de anteontem na praça São Salvador, quando Garotinho entregou sua campanha “em primeiro lugar a Deus e, em segundo, ao povo”.

Na incerteza do Divino, quanto ao povo, apesar de ter sido bravateada a presença de mais de 15 mil pessoas na praça, ninguém que lá esteve foi capaz de enxergar, com muito boa vontade, no máximo um quinto disso.

Garotinho, então, é carta fora do baralho, como se arriscam a já apregoar alguns? Longe disso! Marcelo Crivella (PRB) que aparece com 17% no Ibope e 19%, pelo Datafolha, ainda pode ser fator surpresa, tanto no primeiro, quanto no segundo turno. Muito embora em sua entrevista exclusiva publicada hoje na Folha, o sobrinho de Edir Macedo deixe nas estrelinhas da última resposta a indicação de que, num segundo turno entre Pezão e Garotinho, caminharia com o primeiro. E não é nem preciso ser mais inteligente do que Aécio Neves (PSDB), aliado de Dilma na desconstrução de Marina, para projetar isso.

Inteligência é o que nunca faltou a Garotinho. Tampouco ao generalíssimo Francisco Franco, que recebeu o apoio de Hitler para vencer a Guerra Civil Espanhola, mas nunca retribuiu o favor na II Guerra Mundial.

O resultado? O líder da Alemanha se mataria no fundo de seu bunker, em abril de 1945, numa Berlim posta de joelhos pela ex-União Soviética com tanta lenha para queimar quanto Dilma e Pezão demonstram ter agora. Enquanto isso, Franco continuou governando a Espanha até bem perto de morrer, de causas naturais, em 1975, dentro dos mesmos princípios fascistas derrotados 30 anos antes, nos campos de batalha da II Guerra.

Mesmo que Garotinho perca a disputa ao governo do estado, só um tolo pode supor que seu candidato à sucessão de Rosinha, independente do nome, não entre na disputa como favorito em 2016. Da mesma maneira, só outro tolo acreditaria que a oposição local não vá mais uma vez dividir sua força já inferior em várias candidaturas ainda menores, exatamente como fizeram na Guerra Civil Espanhola os defensores do estado democrático de direito. Foi quando popularizaram no mundo o inspirador lema “!No passarán!” (“Não passarão!”), antes dos coturnos franquistas passarem sobre suas cabeças.

 

Publicado hoje, na edição impressa da Folha.

 

 

Corrida eleitoral

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Família

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Na história republicana do Brasil, não houve político mais influente do que Lula

Historiador Marco Antonio Villa

Historiador Marco Antonio Villa

O silêncio de Lula

Por Marco Antonio Villa

Na história republicana brasileira, não houve político mais influente do que Luiz Inácio Lula da Silva. Sua exitosa carreira percorreu o regime militar, passando da distensão à abertura. Esteve presente na Campanha das Diretas. Negou apoio a Tancredo Neves, que sepultou o regime militar, e participou, desde 1989, de todas as campanhas presidenciais.

Quando, no futuro, um pesquisador se debruçar sobre a história política do Brasil dos últimos 40 anos, lá encontrará como participante mais ativo o ex-presidente Lula. E poderá ter a difícil tarefa de explicar as razões desta presença, seu significado histórico e de como o país perdeu lideranças políticas sem conseguir renová-las.

Lula, com seu estilo peculiar de fazer política, por onde passou deixou um rastro de destruição. No sindicalismo acabou sufocando a emergência de autênticas lideranças. Ou elas se submetiam ao seu comando ou seriam destruídas. E este método foi utilizado contra adversários no mundo sindical e também aos que se submeteram ao seu jugo na Central Única dos Trabalhadores. O objetivo era impedir que florescessem lideranças independentes da sua vontade pessoal. Todos os líderes da CUT acabaram tendo de aceitar seu comando para sobreviver no mundo sindical, receberam prebendas e caminharam para o ocaso. Hoje não há na CUT — e em nenhuma outra central sindical — sindicalista algum com vida própria.

No Partido dos Trabalhadores — e que para os padrões partidários brasileiros já tem uma longa existência —, após três decênios, não há nenhum quadro que possa se transformar em referência para os petistas. Todos aqueles que se opuseram ao domínio lulista acabaram tendo de sair do partido ou se sujeitaram a meros estafetas.

Lula humilhou diversas lideranças históricas do PT. Quando iniciou o processo de escolher candidatos sem nenhuma consulta à direção partidária, os chamados “postes”, transformou o partido em instrumento da sua vontade pessoal, imperial, absolutista. Não era um meio de renovar lideranças. Não. Era uma estratégia de impedir que outras lideranças pudessem ter vida própria, o que, para ele, era inadmissível.

Os “postes” foram um fracasso administrativo. Como não lembrar Fernando Haddad, o “prefeito suvinil”, aquele que descobriu uma nova forma de solucionar os graves problemas de mobilidade urbana: basta pintar o asfalto que tudo estará magicamente resolvido. Sem talento, disposição para o trabalho e conhecimento da função, o prefeito já é um dos piores da história da cidade, rivalizando em impopularidade com o finado Celso Pitta.

Mas o símbolo maior do fracasso dos “postes” é a presidente Dilma Rousseff. Seu quadriênio presidencial está entre os piores da nossa história. Não deixou marca positiva em nenhum setor. Paralisou o país. Desmoralizou ainda mais a gestão pública com ministros indicados por partidos da base congressual — e aceitos por ela —, muitos deles acusados de graves irregularidades. Não conseguiu dar viabilidade a nenhum programa governamental e desacelerou o crescimento econômico por absoluta incompetência gerencial.

Lula poderia ter reconhecido o erro da indicação de Dilma e lançado à sucessão um novo quadro petista. Mas quem? Qual líder partidário de destacou nos últimos 12 anos? Qual ministro fez uma administração que pudesse servir de referência? Sem Dilma só havia uma opção: ele próprio. Contudo, impedir a presidente de ser novamente candidata seria admitir que a “sua” escolha tinha sido equivocada. E o oráculo de São Bernardo do Campo não erra.

A pobreza política brasileira deu um protagonismo a Lula que ele nunca mereceu. Importantes líderes políticos optaram pela subserviência ou discreta colaboração com ele, sem ter a coragem de enfrentá-lo. Seus aliados receberam generosas compensações. Seus opositores, a maioria deles, buscaram algum tipo de composição, evitando a todo custo o enfrentamento. Desta forma, foram diluindo as contradições e destruindo o mundo da política.

Na campanha presidencial de 2010, com todos os seus equívocos, 44% dos eleitores sufragaram, no segundo turno, o candidato oposicionista. Havia possibilidade de vencer mas a opção foi pela zona de conforto, trocando o Palácio do Planalto pelo controle de alguns governos estaduais.

Se em 2010 Lula teve um papel central na eleição de Dilma, agora o que assistimos é uma discreta participação, silenciosa, evitando exposição pública, contato com os jornalistas e — principalmente — associar sua figura à da presidente. Espertamente identificou a possibilidade de uma derrota e não deseja ser responsabilizado. Mais ainda: em caso de fracasso, a culpa deve ser atribuída a Dilma e, especialmente, à sua equipe econômica.

Lula já começa a preparar o novo figurino: o do criador que, apesar de todos os esforços, não conseguiu orientar devidamente a criatura, resistente aos seus conselhos. A derrota de Lula será atribuída a Dilma, que, obedientemente, aceitará a fúria do seu criador. Afinal, se não fosse ele, que papel ela teria na política brasileira?

O PT caminha para a derrota. Mais ainda: caminha para o ocaso. Não conseguirá sobreviver sem estar no aparelho de Estado. Foram 12 anos se locupletando. A derrota petista — e, mais ainda, a derrota de Lula — poderá permitir que o país retome seu rumo. E no futuro os historiadores vão ter muito trabalho para explicar um fato sem paralelo na nossa história: como o Brasil se submeteu durante tantos anos à vontade pessoal de Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Publicado aqui, na globo.com

 

 

Artigo do domingo — Da arte da guerra

Queda de Berlim em  2 de maio de 1945

Queda de Berlim em 2 de maio de 1945

 

O avanço na reta final de Marina Silva (PSB) e Luiz Fernando Pezão (PMDB), como indicam todas as pesquisas mais recentes, fará da primeira presidente da República e manterá o segundo governador do Rio? A pergunta pode ser substituída por outra: líderes nas pesquisas desde o início da campanha eleitoral, a presidente Dilma Rousseff (PT) e o ex-governador Anthony Garotinho (PR) conseguirão resistir ao assalto ameaçador de quem quer tomar o lugar da primeira e de quem não planeja ceder a cadeira ao segundo?

Na política ou na guerra, tática é o que se usa para vencer uma batalha, uma disputa pontual como um debate ou uma pesquisa, ao passo que as guerras (como as eleições) são vencidas pela estratégia. Na guerra, raras vezes se viu tática tão revolucionária quanto a blitzkrieg (guerra relâmpago) criada pela Alemanha na II Guerra Mundial (1939/45), baseada nos deslocamentos rápidos de blindados, com apoio de infantaria, artilharia e aviação, em ações coordenadas.

Para quem assistiu a Mike Tyson lutar no seu auge, ou viu o Flamengo de Zico jogar, é mais ou menos aquilo. Quando o adversário pensa ainda estar em fase de estudos iniciais, já foi nocauteado por uma sessão fulminante de golpes.

Quem só conhece a II Guerra pelos filmes de Hollywood, não tem dúvida: foi o esforço dos Aliados, liderado pelos EUA, a partir do Dia D (em 6 de junho de 1944), que libertou a Europa do jugo da Alemanha nazista. Quem conhece de fato o que foi o maior conflito armado da humanidade, com saldo final de mais de 60 milhões de mortos, sabe que a protagonista real da derrota alemã foi a ex-União Soviética. Quem conhece matemática, que faça as contas: enquanto os russos encararam 172 divisões alemães, todos os demais Aliados juntos (incluídos EUA e Brasil) só deram conta de 42 divisões do exército germânico, mais de quatro vezes menos.

Mas se a tal da blitzkrieg era assim tão à frente do seu tempo, a ponto de ter sido modelo tático aos EUA em suas invasões ao Iraque em 1991 e 2003, como a Alemanha pôde ser derrotada na II Guerra? Simples: homem de gênio militar, conhecedor das virtudes do inimigo, tanto quanto das limitações do seu exército, o marechal russo Gueorgui Zhukov (1896/1974) apenas simulou resistência à invasão alemã, permitindo a penetração inimiga em seu próprio território, muito mais vasto, com mais recursos humanos e materiais do que o agressor. Este, depois de levado ao seu limite logístico, teve o avanço cortado em sua base, transformando invasor em sitiado.

Foi assim que, em dezembro de 1942, a partir da reviravolta na Batalha de Stalingrado (atual Volvogrado, no sul da Rússia), Zhukov comandou sua contra-ofensiva. Dali, ele só parou ao finalmente tomar Berlim, em maio de 1945, definindo a geopolítica do mundo até a queda do famoso muro na capital alemã, em novembro de 1989, que a mesma União Soviética ergueria para depois cair com ele.

Antes disso, porém, os russos só venceram os alemães na II Guerra porque, em bom português, tinham mais garrafas para vender. Leia-se: terra, gente e recursos materiais. Taticamente, Zhukov podia bancar suas perdas humanas e materiais desproporcionalmente maiores a cada batalha contra a temível blitzkrieg, afiançado na certeza estratégica de que, na hora de repor, tinha muito mais de onde tirar para vencer a guerra.

Apenas pelo número de placas que Garotinho ostenta em todos os rincões do território fluminense, em quantidade amplamente superior à soma de todos os demais candidatos a governador do Rio, ninguém pode supor que lhe faltem recursos materiais. Afinal, lá se vão 26 anos da campanha do “tostão contra o milhão”, que em 1988 levaria o então jovem político da Lapa a conquistar primeira vez a Prefeitura de Campos.

Mas será que novamente candidato a governador (perdeu para Marcello Alencar, em 1994, e ganhou duas vezes, consigo, em 98, e com Rosinha, em 2002), Garotinho terá os mesmos recursos para se opor ao avanço de Pezão que a presidente Dilma para tentar conter a onda de Marina? Diferente da certeza dos números entre quem se enfrentou na II Guerra, aqueles apontados pelas atuais pesquisas brasileiras e fluminenses não dão nenhuma certeza.

Se no Ibope Garotinho ainda lidera a corrida (com 27%) contra Pezão (19%), ele empataria no segundo turno não só com o atual governador (ambos com 35%), como com o senador Marcelo Crivella (do PRB, com 34% cada). E as contas são ainda mais apertadas pelo Datafolha, no qual Garotinho já aparece empatado tecnicamente com Pezão (28% contra 23%), mas perderia no segundo turno não só para este (36% a 45%), como também para Crivella (33% a 45%).

Dilma, por sua vez, está empatada tecnicamente com Marina no primeiro turno: 37% a 33% no Ibope e 35% a 34% no Datafolha. Mas a presidente também perderia o segundo turno para a ex-ministra de Lula: 37% a 46% pelo Ibope e 41% a 48% no Datafolha. Todavia, diferente de Garotinho em relação a Crivella no Rio, as pesquisas não apontam em Aécio Neves (PSDB) um terceiro colocado tão perigoso num hipotético segundo turno presidencial, no qual Dilma venceria o tucano por 47% a 34%, no Ibope, e de 49% a 38%, no Datafolha. Ademais, diferente de Pezão, que registrou uma impressionante arrancada de 7% no Datafolha, Marina parece já ter alcançado seu teto de intenções de voto no primeiro turno.

Ao comentar as últimas pesquisas, Garotinho não está errado ao ecoar outro campista, o ex-craque Didi, bicampeão mundial pela Seleção Brasileira em 1958, na Suécia, e 1962, no Chile, no qual cunhou a frase: “Treino é treino, jogo é jogo”.

No jogo jogado, não há certeza se Dilma e Garotinho terão garrafas para vender daqui até outubro e novembro, na tentativa de encontrar uma estratégia de resistência ou reversão dos avanços de Marina e Pezão. No entanto, das disputas ainda mais acirradas dos campos de batalha da II Guerra, talvez seja pertinente lembrar que a tática do ataque incisivo ao adversário — empregada por Garotinho desde sempre e por Dilma no desespero — foi a de quem só colecionou vitórias para perder no fim.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

 

E nas pesquisas… (II)

 CHARGE 05-09-2014[1]