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E na cidade…

charge 31-5-2016

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“Oposição ficou órfã com Cabral e Pezão engolidos pela crise do RJ”

Dos 10 pré-candidatos governistas à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR), ele foi o último a entrar na disputa. E, curiosamente, foi o primeiro a compor a chapa majoritária com a então candidata, em 2008, antes de assumir sua secretaria de Saúde no primeiro governo. Embora admita queda na pasta durante a segunda administração rosácea, da qual foi líder na Câmara Municipal, Paulo Hirano acha que a Saúde goitacá continua melhor do que em outras cidades. Ao identificar uma oposição “órfã” de Cabral e Pezão, ele não fechou portas aos “independentes”.

 

Paulo Hirano (foto: Folha da Manhã)

Paulo Hirano (foto: Folha da Manhã)

 

Último pré-candidato governista – Na verdade, fazemos parte de um grupo político que tem vários pré-candidatos altamente qualificados. O cenário político é muito dinâmico. A importância é ter sempre à disposição pessoas capazes de carregar as ideias e a filosofia do grupo. Essas pessoas vão sendo evidenciadas, conforme a necessidade do momento político. A minha participação no grupo vem desde 2008, quando era candidato a vice-prefeito e acabei não podendo participar do pleito majoritário, na chapa com Rosinha (PR), porque houve uma intervenção do DEM, fazendo com que tivéssemos que lançar o Chicão (PR). Mas tive uma participação muito grande na campanha, participando do governo desde o primeiro dia, como secretário de Saúde. Em 2012, fui eleito vereador, como quinto mais votado, e fui líder de governo entre 2013 e 2015.

Prévias – Estão organizadas, mas estamos aguardando a posição da Justiça Eleitoral, que enviou (aqui) um documento obrigando o NOS (Núcleo de Organização Social) de se abster de fazer o cadastro e realizar as prévias eleitorais que definiriam democraticamente o nosso candidato. Foi feito um recurso junto ao TRE, para ver qual é a justificativa. Os presidentes dos 12 partidos reunidos da Frente Popular Progressista contavam com as prévias.

Governo Rosinha – O governo Rosinha evoluiu muito a cidade como um todo, porque atuou em todas as áreas. Em infraestrutura urbana, por exemplo, foram feitos mais de 170 km de rede de esgoto na nossa cidade. Temos 80% do esgoto coletado e, destes, 100% são tratados. Outro grande passo foram os Bairros Legais. São 16, levando asfaltamento, acessibilidade, água e esgoto a bairros que não contavam com nada disso. Outro de nossos projetos mais importantes foi o “Morar Feliz”. Nenhum município do país tem um programa como esse, só com recursos próprios. Foram 6,7 mil unidades habitacionais, resgatando e dando dignidade a cerca de 25 mil pessoas que estavam à beira do rio, à beira do lago, à beira da estrada, à beira do limite extremo da pobreza. Foi uma evolução muito significativa. Nosso desafio é manter suas conquistas e buscar novas alternativas.

Saúde – O momento da Saúde pode não parecer bom, mas avançamos muito. Se analisarmos o que foi feito de 2009 a 2012, há uma queda em relação a hoje. Mas Campos ainda é a cidade que mais investe, per capita, em Saúde no estado. Os dados são do Conselho Federal de Medicina, fruto de avaliação externa: em 2015, Campos ficou em primeiro, com 3,70; Volta Redonda em segundo, com 2,40; Petrópolis em terceiro, com 2,22; e a cidade do Rio de Janeiro em quinto, com 1,58. Nós aplicamos mais de 50% da arrecadação própria em Saúde, quando a Constituição Federal diz que devem ser 15%. Reimplantamos o antigo PSF (Programa Saúde da Família), suspenso pela Justiça Federal em 2008, agora como ESF (Estratégia de Saúde da Família). Oferecemos, além dos exames básicos, os especializados, como ressonância, tomografia, ultrassonografia e cateterismo. Na oncologia, Campos é privilegiada, com suas três Unacons (Serviço de Alta Complexidade em Oncologia), dois aceleradores lineares para radioterapia mais avançada. Oferecemos serviços que só há em Campos, como cirurgia bariátrica e tratamento de infertilidade. Além disso, o município se tornou, a partir da nossa gestão na secretaria de Saúde, uma referência nacional em imunização, com a Prevenar e contra HPV, não só para as meninas, como os meninos. Somos talvez a única cidade do país que faz a complementação da rede contratualizada pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Em 2016, já pagamos R$ 13 milhões e empenhamos outros R$ 41 milhões com os hospitais. O que houve foi a crise nacional, estadual e municipal, comprometendo muitos serviços que vinham sendo executados. Isso somado à migração de doentes de todo Norte e Noroeste Fluminense, além do Sul do Espírito Santo. Só Macaé segura um pouco. Mas temos a absoluta convicção de que avançamos muito no governo Rosinha, principalmente se compararmos a Saúde de Campos com outros municípios do estado, inclusive a capital.

Oposição – Faz o seu papel de se opor ao governo. Mas se você fizer uma análise de tudo que é dito, são coisas pontuais. Como quando você cita uma escola que está em obra, mas não fala, logicamente, das centenas de escolas que foram construídas ou reformadas; não fala das 26 creches e escolas modelo, todas construídas no governo Rosinha. A oposição afunila a questão no problema específico, que é o seu papel, mas sem a versão universal. Temos problemas, sim, mas cabe à oposição enaltecer o problema. O cenário é mais positivo do que negativo. A oposição vinha apoiada pelos governos Cabral e Pezão (ambos do PMDB). Todos os apoiaram na última eleição a governador, fizeram campanha, foram às ruas e pediram voto. Agora, ficaram órfãos, porque suas lideranças foram engolidas pela situação grave do Estado do Rio. Não há sustentação política à oposição que possa trazer benefício para o futuro.

“Independentes” – São todos políticos com mandato de vereador que estavam na base do governo. Acho que com a evolução dos fatos até a eleição, eles estarão com as opções que forem melhores para o futuro da cidade.

 

 

Página 2 da edição de hoje (31) da Folha

Página 2 da edição de hoje (31) da Folha

 

 

Publicado hoje (31) na Folha da Manhã

 

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“Desafio é manter conquistas de Rosinha e buscar novas alternativas”

Hirano

Paulo Hirano (foto: Folha da Manhã)

 

 

“O governo Rosinha evoluiu muito a cidade com um todo, porque atuou em todas as áreas. Nosso desafio é manter suas conquistas e buscar novas alternativas”.

“O momento da Saúde pode não parecer bom, mas avançamos muito. Se analisarmos o que foi de 2009 a 2012, há uma queda em relação a hoje. Mas Campos ainda é a cidade que mais investe, per capita, em Saúde no Estado”.

“Os ‘independentes’ estavam na base do governo. Acho que com a evolução dos fatos até a eleição, eles estarão com as opções que forem melhores para o futuro da cidade”.

 

Estas foram algumas declarações dadas hoje pelo vereador Paulo Hirano (PR), ex-secretário de Saúde do primeiro governo Rosinha Garotinho (2009/12) e seu líder na Câmara Municipal entre 2013 e 2015. Último dos 10 pré-candidatos governistas a entrar na corrida pela Prefeitura de Campos, confira a íntegra da sua entrevista na edição de amanhã (31) da Folha da Manhã.

 

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Eixo rodoviário do Açu e novo barramento do Paraíba no mapa da Firjan

Mauro Silva entre os dirigentes da Firjan Eduardo Eugênio e Geraldo Coutinho (foto: divulgação)

Mauro Silva entre os dirigentes da Firjan Eduardo Eugênio e Geraldo Coutinho (foto: divulgação)

 

 

A construção de barramento do rio Paraíba do Sul, visando a revitalização agrícola principalmente da Baixada Campista, e a implantação de novo eixo rodoviário para o Porto do Açu. Estes foram os dois pontos destacados pelo líder rosáceo na Câmara Municipal e pré-candidato a prefeito, Mauro Silva (PSDB), hoje, na sede da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), quando foi lançado o Mapa de Desenvolvimento (2016-2025) da entidade, com a presença do ministro do Planejamento Henrique Meirelles e do governador do Rio em exercício, Francisco Dornelles (PP).

Mauro elogiou o conjunto de propostas do setor industrial  para o crescimento do Estado, por também contemplar propostas regionais. O vereador integrou a comitiva formada por mais de 20 empresários locais e da região, juntamente com o presidente da delegacia regional da Firjan, Fernando Aguiar, e o secretário municipal  de Desenvolvimento Econômico, Orlando Portugal:

— O primeiro Mapa de Desenvolvimento do Estado do Rio, lançado pela Firjan em 2006, teve 75% das propostas concluídas ou avançando. Esperamos resultado semelhante com o novo mapa, para o decênio 2016-2015, como forma de alavancar o crescimento econômico e social do Rio, contemplando o fortalecimento do interior e, em nosso caso especial, com projetos importantíssimos e vitais para Campos e o Norte Fluminense — pontuou Mauro.

 

Com informações do assessor Adelfran Lacerda

 

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Ar condicionado

charge 26-05-2016

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Ocupa TB: Você é artista em Campos? Então está convidado!

Você é artista na cidade de Campos? Então sua presença foi convocada aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, para uma assembleia geral nessa segunda, dia 30, às 20h, no Teatro de Bolso Procópio Ferreira. O convite foi feito pelos artistas por que ocuparam o teatro (aqui) desde o último dia 9.

Confira abaixo a reprodução do convite:

 

Assembleia Ocupa TB

 

Convite

O Movimento #ocupateatrodebolso convida os artistas, de todas as vertentes, a se reunirem em Assembleia Geral, no dia 30 de maio, às 20h, no Teatro de Bolso (entrada lateral), a fim de compartilhar com a classe as ações do movimento até o momento, assim como seus desdobramentos, e deliberar sobre a seguinte pauta

a) Apresentação e Balanço da Ocupação

b) Pauta Protocolada (aqui)

c) Administração Compartilhada do Teatro

d) Outros assuntos pertinentes ao contexto do movimento de ocupação.

Contamos com apoio e participação de todos e continuamos à disposição para quaisquer esclarecimentos e/ou informações necessárias.

 

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Fabio Bottrel — O Autor Vive no Texto Literário

Cartaz Bottrel

 

Há algum tempo um pensamento vem assombrando minha cabeça, daqueles que ficam entalados na garganta, descem para o peito e dói se não colocar para fora. Isso acontece enquanto escrevo minhas obras, a transição do sentimento em palavras às vezes é tão dolorosa que não é raro eu chorar enquanto digito. Caso se emocione ao ler um texto meu, saiba,ali também caiu uma lágrima minha. Imaginar que nesse momento estou morto é difícil para mim e é frequente me deparar com algumas indagações oriundas da Morte do Autor, texto de Roland Barthes onde afirma a voz do autor não ter origem, somente destino, e induz ao pensamento de que seria indomável a interpretação do leitor. Há 4 anos concordei e escrevi sobre, reafirmando no meu livro Academia de Roteiros Cinematográficos, mas hoje, após alguns anos de estudos e prática, minha opinião diverge, e explicarei o porquê, com todo o respeito aos intelectuais locais que discordam.

Semiótica e semiologia têm a mesma raiz grega σημεῖον (semeion), que significa signos. Por ela entende-se a teoria geral dos signos, uma indagação sobre a sua natureza e relações, funcionando como um mapa lógico ao traçar as linhas dos diferentes aspectos dos quais uma análise deve ser conduzida. Qualquer coisa presente à mente, que substitua ou represente outra, em certas medidas e para certos efeitos, tem a natureza de um signo – Como explica Décio Pignatari em Semiótica e Literatura. Sua fundamental característica é a de estimular interpretações e acredito que o arranjo de um conjunto de significantes simbólicos (palavras) gera uma estrutura de significados ainda abstrata a nós, mas possível deser calculada e manipulada por quem determina a estrutura de significantes. O importante, de fato, é a estrutura de significados, os significantes são apenas uma ferramenta para criá-la. Tome como exemplo uma estrutura fora da clássica aristotélica de início, meio e fim nessa ordem. Por mais que a linearidade espaço-temporal seja quebrada, jamais poderia ser quebrada a linearidade da estrutura de significados, onde está a assimilação e o entendimento da obra por parte do apreciador. Caso seja quebrada não faria mais sentido a obra para quem lê, portanto inviável sua apreciação.Para deixar mais claro, pensei em analisar a narrativa em duas camadas aqui: estrutura e estilo.

Veja um trecho do artigo de Philip Athans no The Writer Life, onde demonstra uma maneira de manipulação:

“Mesmo quando lemos silenciosamente, a tendência é respirar acompanhando o texto como se estivéssemos lendo em voz alta. É impossível desligar certas partes do cérebro e quando algo nos faz respirar de maneira diferente, nos força a entrar em diferentes estados. Quando você está num pânico cego tende a hiperventilar, respirando rápido em breves arfadas. Quando está nervoso ou ansioso com alguma coisa (sentimento de suspense), tende a segurar a respiração e respirar lentamente.

O processo funciona de maneira inversa. Se puder forçar esse estado de respiração (ou, precisamente, algo menor, uma versão menos traumática desse estado) nos seus leitores, conseguirá a resposta psicológica requisitada.

Quando estiver construindo um suspense, evocando sentimento de morte iminente ou medo terrível do desconhecido, faça seu leitor prender a respiração. Impeça-o de fazer a próxima respiração por um tempo maior que o normal. E mesmo parecendo impossível de fazê-lo com palavras no papel, lembre-se do que eu disse sobre como respiramos inconscientemente como se estivéssemos lendo em voz alta mesmo quando não estamos.

Uma das razões para as frases serem finitas é o ponto final nos permitir uma respiração. Parágrafos nos dão uma chance de fazer uma respiração mais profunda. Então, se deseja que o leitor respire lentamente e comece a se sentir nervoso, ansioso ou temeroso, mantenha suas frases longas e os parágrafos mais longos ainda.

Bem no início de The Hauntingof Hill House, clássico de Shirley Jackson, a protagonista, Eleanor, está a caminho de encontrar seu amigo investigador paranormal na casa conhecida por ser mal-assombrada. Embora excitada por ser parte de algo potencialmente importante, distanciando-se da sua monótona vida na cidade, Eleanor está com muito medo do que vai encontrar lá. Não somente pelos fantasmas, mas como resultado do que vamos nos referir agora como ansiedade social. Quanto mais ela se aproxima da casa, mais ansiosa fica.

Jackson transmite essa ansiedade com um único parágrafo onde Eleanor faz uma parada em uma pequena cidade pelo caminho e toma um café. É uma cena inócua, mas contada num tenso ponto de vista, é incrivelmente desesperador. Esse único parágrafo consiste em dez frases, a primeira das frases é a menor com 28 palavras. A última é a maior com 52 palavras.

Pense na última vez que leu, dirá escreveu, uma frase com 52 palavras.

No final desse parágrafo monstro, Shirley Jackson deixou seus leitores com falta de ar, e ajudou a solidificar The Hauntingof Hill House como um dos clássicos incontestáveis do gênero.

Por outro lado, se o monstro, serial killer ou vilão finalmente se revela, o terror (sentimento assustador generalizado) transforma em horror (reação visceral a um evento traumático em progresso).

Agora você quer exatamente o oposto: forçar seus leitores a respirar com muita frequência, forçando-os a hiperventilar. Faça isso com frases curtas e parágrafos mais curtos ainda.

Parágrafos de uma frase.

Em outra clássica história de casa mal-assombrada, HellHouse, Richard Matheson evoca esse sentimento de pânico numa cena de nove parágrafos, cada um com não mais que duas pequenas frases. Leitores estão treinados a ter uma respiração completa depois de cada parágrafo, então as respirações virão rápidas e furiosas através de:

Ela parou com um sobressalto e olhou para a mesa espanhola.

O telefone estava tocando.

Impossível, ela pensou. Não tem funcionado a mais de trinta anos.

Ela não podia atender. Ela sabia quem era.

Ele continuou tocando, os sons estridentes apunhalando seus tímpanos, seu cérebro.

Ela não deve atender. Não poderia.

“Não!” Ela disse.

Tocando. Tocando. Tocando. Tocando.

Eu sei — tecnicamente, o último parágrafo tem quatro frases, mas vamos considerar o empilhamento em staccato de “Tocando” como uma frase com respirações parciais entre cada palavra.

Em vez de um único parágrafo de dez frases, temos parágrafos de uma ou duas frases, com a frase/parágrafo mais longo com 14 palavras, ou precisamente a metade do tamanho da menor frase de Shirley Jackson.

Após essa cena, há um par de parágrafos um pouco mais longos conforme a protagonista tenta assumir o controle da situação, mas isso é rapidamente descartado por mais ataques de staccato sobre os sentidos. E, como The Hauntingof Hill House, o irrefreável sucesso de HellHouse é a prova da eficácia.”

(Tradução de inglês para português por mim)

Esmiuçando ainda mais a estilística, lembro-me de quando trabalhava numa pesquisa de transmissão de ondas cerebrais por redes neurais artificiais para comunicação cérebro-computador (BCI — Brain Computer Interface) quando ainda me dedicava à engenharia eletrônica. A pesquisa acontecia no Centro Federal de Educação Tecnológica no Rio de Janeiro com o objetivo de reinserção social de crianças com paralisia cerebral, e a literatura se mostra sublime quando arte que permite agregar todos esses conhecimentos. As ondas da atividade motora necessárias para os fins da transmissão eram as ondas µ, por volta de 13 hertz, dentro das ondas Alfa, que variam de 12 a 16 hertz. Havia um treinamento para entrar em estado Alfa e alcançar as ondas µ, à época tive a ideia de fazê-lo com as palavras ao ler em Inteligência Emocional de Daniel Goleman, uma pesquisa numa faculdade americana onde mesmo os mais apáticos sentiam sudorese, leve taquicardia, dentre outras coisas quando na presença de palavras que carregam fortes significados como “mãe” e “morte” por exemplo, em contraste com outras como “cadeira” e “mesa” que nada lhes despertavam.Bom, se descobrisse uma maneira de unir esses significantes modulando a intensidade para modular a frequência das ondas cerebrais, pois controlando a intensidade do batimento cardíaco através das palavras, posso controlar a oxigenação do cérebro, que afeta as sinapses e, portanto, o campo eletromagnético das ondas cerebrais.

Agora, se eu tenho consciência das palavras a causar maior desgaste emocional no leitor, no momento de maior intensidade em vez de usar palavras como cadeira e mesa por exemplo, usarei todas as de maiores intensidades: “mãe, morte, vida, pai etc.” induzindo o leitor a um estado emocional e mesmo cerebral que lhe permita a catarse.Na minha opinião, o escritor profissional sabe exatamente onde deixará o leitor respirar e onde prenderá sua respiração e tenta, cada vez mais, dominar a sua arte.É inegável que a obra dialoga e as ações contidas nela têm relações psicológicas com o leitor, às vezes com princípios mesmos biológicos, como demonstra o professor húngaro de psicologia social da Academia Húngara de Ciência, János László, em seu livro The Science of Stories — An Introduction to Narrative Psychology. Com habilidade e conhecimento o escritor consegue tocar, como se com as palavras adentrasse o corpo do leitor e arrancasse de lá seus sentimentos mais profundos. Enxergar o ofício da escrita como um monólogo de si mesmo e depois publicar sem o mínimo de consideração com o leitor é o paradoxo de um artista que não conseguiu cortar o cordão umbilical de si com seu próprio ego.

Enquanto me especializo nesse ofício, assusta-me o tanto de pessoas que afirmam não ter o que dominar, com a ideia de a escrita ser o simples colocar de palavras no papel guiadas apenas pela intuição. É certo que a intensidade da emoção escrita será valorada pelo leitor diante das suas experiências de vida, intertextos, a maneira como interpreta, conhecimentos de mundo etc. Mas há um princípio calcado pelo autor impugnado nessa interpretação. Se escrevo num momento chave da minha narrativa a morte da mãe de um personagem, o leitor que perdeu a mãe há poucos dias terá uma emoção muito maior comparadoao leitor cuja mãe é viva.  Mas o esqueleto da interpretação criado pelo autor, condutordesse pensamento e emoção está ali para os dois, mesmo que ainda seja abstrato e aí está a estrutura manipulável de significados. Numa sociedade onde mãe tivesse valor cultural diferente da nossa, a interpretação da ação escrita poderia guinar para um rumo não imaginado. Como quase tudo na vida há exceção, não teria o porquê de ser diferente aqui.

No livro Interpretação e Superinterpretação, encontrei um exemplo de John Wilkins analisado por Umberto Eco, o mesmo que inicia o livro Os Limites da Interpretação, com argumentos pertinentes ao discutido aqui:

“O que quero dizer aqui é que existem critérios para limitar a interpretação. Caso contrário, correríamos o risco de nos ver diante de um paradoxo meramente linguístico do tipo formulado por Macedonio Fernandez: “Neste mundo faltam tantas coisas que, se faltasse mais uma, não haveria lugar para ela.” (…)

No começo de seu Mercury; Or, the Secretand Swift Messenger (1641), John Wilkins conta a seguinte história:

O quanto essa arte de escrever pareceu estranha quando da sua invenção primeira é algo que podemos imaginar pelos americanos recém-descobertos, que ficaram espantados ao ver homens conversarem com livros, e não conseguiam acreditar que um papel pudesse falar…

Há um relato excelente a este propósito, referente a um escravo índio; que, ao ser mandado por seu senhor com uma cesta de figos e uma carta, comeu durante o percurso uma grande parte de seu carregamento, entregando o restante à pessoa a quem se destinava; que ao ler a carta e não encontrando a quantidade de figos correspondente ao que se tinha dito, acusa o escravo de comê-los, dizendo-lhe que a carta afirmara aquilo contra ele. Mas o índio (apesar dessa prova) negou o fato com a maior segurança, acusando o papel de ser uma testemunha falsa e mentirosa.

Depois disso, sendo mandado de novo com um carregamento semelhante e uma carta expressando o número exato de figos que deviam ser entregues, ele, mais uma vez, de acordo com sua prática anterior, devorou uma grande parte deles durante o percurso; mas, antes de comer o primeiro (para evitar as acusações que se seguiriam), pegou a carta e a escondeu sob uma grande pedra, assegurando-se de que, se ela não o visse comer os figos, nunca poderia acusá-lo; mas, sendo agora acusado com muito mais rigor do que antes, confessou a falta, admirando a divindade do papel e, para o futuro, promete realmente toda a sua fidelidade em cada tarefa.

Poder-se-ia dizer que um texto, depois de separado de seu autor (assim como da intenção do autor) e das circunstâncias concretas de sua criação (e, consequentemente, de seu referente intencionado), flutua (por assim dizer) no vácuo de um leque potencialmente infinito de interpretações possíveis. (…) Vamos supor agora que não apenas o índio tivesse sido morto, como também que seus assassinos tivessem comido todos os figos, destruído a cesta, colocado a carta numa garrafa e a tivessem jogado no oceano, de modo que fosse encontrada setenta anos depois por Robinson Crusoé. Não havia cesta, nem escravo, nem figos, só uma carta. Apesar disso, aposto que a primeira reação de Robinson Crusoé teria sido: “Onde estão os figos?”.

Bem, vamos supor que a mensagem da garrafa fosse encontrada por uma pessoa mais sofisticada, um estudioso de linguística, hermenêutica ou semiótica. (…) Provavelmente nosso intérprete sofisticado concluiria que o texto encontrado na garrafa se referira, em alguma época, a figos de verdade e que falava especificamente de um determinado remetente, assim como de um determinado destinatário e de um determinado escravo, mas que agora perdeu todo o seu poder de referência. Além disso, a mensagem continuará sendo um texto que certamente se poderia usar para outras inumeráveis cestas e inumeráveis figos, mas não para maçãs e unicórnios. O destinatário poderia imaginar esses atores desaparecidos, ambiguamente envolvido com a mudança de coisas ou símbolos (talvez mandar figos significasse, num dado momento histórico, fazer uma insinuação misteriosa), e partir daquela mensagem anônima para testar uma série de significados e referentes. Mas não estaria autorizado a dizer que a mensagem pode significar qualquer coisa. Pode significar muitas coisas, mas há sentidos que seria despropositado sugerir. Diz, com certeza, que era uma vez uma cesta cheia de figos. Nenhuma teoria voltada para o leitor pode evitar uma restrição como essa.

(…) Não podemos desconsiderar o ponto de vista do escravo que testemunhou pela primeira vez o milagre dos textos e de sua interpretação.”

No artigo The Science Behind Storytelling escrito pela equipe e publicado no site da Melcrum, há um estudo mais detalhado sobre essa interação, demonstra como a arte literária avança com o tempo da tecnologia, comprovando a diferença entre um texto informativo de um literário com princípios biológicos, reafirmando a qualidade textual diante de um domínio da ação narrativa visando uma reação psicológica:

“Quando somos apresentados à informação há duas áreas principais no nosso cérebro que acendem — áreas Wernicke e Broca (veja figura 1). (…)

 

neuro-1

 

Agora note o que acontece quando lê essa passagem de The Firm de John Grisham: “Uma hora antes da meia-noite, o telefone tocou. Exceto por isso e pela luz roncando, o segundo andar do escritório estava sem um som. Seus pés estão sobre a escrivaninha nova, com os tornozelos cruzados e dormentes pela falta de circulação… Depois do telefone tocar uma dúzia de vezes ele se mexeu e então pulou no aparelho… seus sapatos estavam sobre o chão, perto da mesa… um saco vazio de batatinhas estava entre seus sapatos… era sua esposa. “Por que você não ligou?” Ela pergunta friamente, mas com um leve toque de preocupação.”

Nesse tempo, múltiplas regiões do cérebro são ativadas enquanto você lê (veja figura 2):

 

neuro-2

 

  • Córtex sensorial e cerebelo, associado ao processo de textura e sensação (pés sobre a escrivaninha, dormente por falta de circulação).
  • Córtex motor, quando lemos sobre movimentos físicos (pulou).
  • Córtex olfativo para cheiros ou memórias de cheiros, (saco vazio de batatinhas, sapatos).
  • Córtex visual para cor e forma (telefone, sapatos, escrivaninha).
  • Córtex auditivo para som (tocando).

Enquanto fatos e figuras ocupam uma pequena área do cérebro, histórias ocupam múltiplas regiões do cérebro que trabalham juntas para construir respostas tridimensionais imagéticas e emocionais ricas e coloridas. Ao lemos uma história logo começamos a sentir como se o que está se passando no texto estivesse realmente acontecendo. Cada imagem sensória, som, textura, cor, sensações e emoções capturam nosso cérebro enquanto a história nos puxa para dentro e mantém nossa atenção facilmente.

Esse é o poder de uma grande história.”

(Tradução do inglês para o português feita por mim)

Saindo da imersão nas palavras e analisando a obra uma camada acima, na estrutura, mudarei também o gênero textual, pois a estrutura é melhor percebida diante das palavras secas de um roteiro cinematográfico:

Imagine um roteiro em que a cena 10 tem a seguinte situação:

10        INT. QUARTO – DIA          10

Quarto apertado com algumas roupas jogadas ao redor e uma janela com o sol da manhã entrando e refletindo no rosto de Honório.

Cachorro empurra a porta do quarto, entra e observa Honório dormindo.

Sobe na cama e urina na cabeça de Honório, que acorda.

Cachorro sai do quarto.

 

Dez cenas depois algo semelhante acontece:

 

20        INT. QUARTO – DIA          20

Amanhecendo e Honório ainda dormindo.

Cachorro empurra a porta, entra no quarto e observa Honório dormindo.

Começa a uivar e latir para Honório, que acorda.

Cachorro sai do quarto.

 

Na cena 30 temos a seguinte situação:

 

30        INT. QUARTO – DIA          30

Honório na cama, dormindo.

Cachorro empurra a porta, entra no quarto e observa Honório dormindo.

[Aqui o espectador já está induzido a pensar nas ações do cachorro]

 

A repetição constrói o humor, não só pela ação do cachorro e o contexto da cena, mas por deixar o espectador mais à vontade e entregue ao ver essa cena novamente, tem-se um sentimento de dominância sobre o visto e o analisado.

Conhecendo o perfil de Honório e o perfil do cachorro, como as circunstâncias da cena são semelhantes à primeira, ao entrar no quarto, deduz-se que o cachorro fará alguma peraltice com o personagem que está dormindo. Cria-se a expectativa para saber o que o cachorro aprontará todas as vezes que essa cena se repetir. E assim podemos fazer da repetição um ritmo, como uma estrutura própria em relação à estrutura geral e contexto da narrativa, manipulando as emoções do espectador ou do leitor.

Portanto, caro leitor, na humilde opinião desse escritor, são exemplos de que o autor tem domínio sobre a interpretação do leitor e não estava morto quando escreveu, apenas finge a própria morte já que é parâmetro de toda a criação e está bem vivo em seu apreciador. A começar que a perda da identidade é a perda da genialidade e a derrota do artista, a se tornar mais um numa sociedade que deseja fazê-lo como todos os outros. O gênio resiste e não perde a identidade. E mesmo o que eu disse aqui hoje, pode não condizer com o dia de amanhã, pois a arte está em constante evolução com a tecnologia, com a cultura, com o autoconhecimento, novas descobertas e livre para ser questionada a cada instante. O perigo de se fixar a uma teoria ou a um pensamento é que às vezes eles nos amarram tanto, que o tempo passa e a gente fica, pois não sabemos como tirar o nó da corda. Esse é o perigo de uma história singular, como fala a escritora africana Chimamanda Ngozi Adichie numa Palestra no TED.

Reconheço a enorme prepotência de um rapaz em Campos dos Goytacazes, que ainda não saiu da segunda dezena de idade, contradizer um dos maiores semiólogos do mundo, então vou fingir que o dito não faz sentido…

Mas faz.

 

Palestra de ChimamandaNgoziAdichie legendada:

<iframe src=”https://embed-ssl.ted.com/talks/lang/pt-br/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html” width=”640″ height=”360″ frameborder=”0″ scrolling=”no” webkitAllowFullScreenmozallowfullscreenallowFullScreen></iframe>

https://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story

 

Livros e artigos citados:

Livro Verdade e Método, clássico da hermenêutica escrito por Gadamerhttp://www.livrariacultura.com.br/p/verdade-e-metodo-v1-108322

Livro ARC – Academia de Roteiros Cinematográficos https://www.clubedeautores.com.br/book/154403–Academia_de_Roteiros_Cinematograficos#.V0h2hJErLIU

Livro The Science ofStorieshttp://www.livrariacultura.com.br/p/the-science-of-stories-2487001

Artigo Horror Authors: HowtoScaretheHeck Out ofYourReadershttp://thewritelife.com/scary-writing/

Artigo The Science BehindStorytellinghttps://www.melcrum.com/research/strategy-planning-tactics/science-behind-storytelling

Livro Interpretação e Super Interpretação http://www.saraiva.com.br/interpretacao-e-superinterpretacao-4035903.html

Livro Semiótica e Literaturahttp://www.livrariacultura.com.br/p/semiotica-e-literatura-786267

Texto A Morte do Autor no livro Rumor da Língua http://www.saraiva.com.br/o-rumor-da-lingua-390490.html

Livro Limites da Interpretação

http://www.travessa.com.br/OS_LIMITES_DA_INTERPRETACAO/artigo/c7ed5c13-b3e8-44b3-9cfc-1ea6a5db4d47

Livro The Hauntingof Hill House (A Assombração da Casa na Colina, esgotado no Brasil) http://www.amazon.com/Haunting-Hill-House-Penguin-Classics/dp/0143039989

Livro HellHousehttps://www.amazon.com.br/Hell-House-Richard-Matheson/dp/0312868855

Livro Inteligência Emocional http://www.livrariacultura.com.br/p/inteligencia-emocional-65340

 

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Paula Vigneron — Quinze minutos

Ruínas de Atafona, 29/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

Ruínas de Atafona, 29/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

A manhã estava estranha. Maria não podia definir o motivo de senti-la diferente das demais. O vento balançava as árvores plantadas perto do ponto final. As ruas, pouco movimentadas, contribuíam para a sensação que a dominava. Olhou as horas. Nove e quarenta e cinco. O calendário indicava que trinta anos tinham passado desde a última vez em que estivera ali. Na época, optou por um vestido azul marinho. Mais curto do que os habituais. Queria despedir-se dele com uma aparência leve para não pesar o seu caminho. Se deveria partir, que partisse sem dores ou receios. Desejava, mesmo com os nervos à flor da pele, não demonstrar os medos que pulsavam em seu coração. Como seria a distância de Marcos?

Nove e cinquenta. Cinco minutos mergulhada em recordações. Trinta anos sem esquecer passos, palavras, gestos, sorrisos lacrimejados e o olhar do menino que estava prestes a se tornar um homem. Pronto para crescer longe dela.

Maria havia conhecido o rapaz em uma festa. Adolescentes, encantaram-se imediatamente. A atenção dele foi despertada pela beleza da garota. E a dela, pela sua inteligência ao se posicionar sobre diversos assuntos e uma perceptível sensibilidade para lidar com o próximo. “Quantos garotos são assim?”, questionou a si mesma.

O ônibus dele partiria às dez. Em ponto. Sem atrasos, desculpas ou desistências. Agora, seu relógio marcava nove e cinquenta e três. Sete minutos de despedida que se eternizaram por trinta anos. Todos os dias, a mulher se lembrava da partida dele. Como estaria hoje agora? “Marcos, você ainda é capaz de me reconhecer?”, perguntou, em voz alta, às memórias que ecoavam em sua cabeça. Acendeu um cigarro. O vício cresceu à medida que os dois se distanciavam. Ela precisava calar a ansiedade.

“Pode ter certeza de que não me esquecerei de você, minha pequena.”

Embora eles tivessem a mesma idade, ele a tratava como uma criança. Perdia noites de sono para acalmá-la, por telefone, quando seus planos desandavam. Escolhia delicadamente as palavras que poderiam confortar Maria. Quando feliz, por quaisquer razões, ambos comemoravam juntos. Mantiveram-se assim por anos. A rotina foi modificada pela mudança. Marcos havia sido convidado para morar em outra cidade, na casa de seus tios. Conseguira seu primeiro e importante emprego. Não poderia recusar a oportunidade.

“Você me entende, Maria?”

“Entendo, Marcos. E acho que a sua escolha está certa. Não é sempre que temos uma chance como essa.”

“Eu vou, mas eu volto assim que tiver tempo. Em breve, em um ônibus igual a este, chegarei de malas prontas e ficarei definitivamente. Aguarde um pouco. Só um pouco.”

Ela esperaria o tempo que fosse necessário. Ele acreditava, embora temesse que a namorada mudasse de ideia. Todos os receios e anseios foram silenciados. Não poderia haver empecilhos.

Nove e cinquenta e cinco. Dois minutos que pareceram dias. Como era relativo o tempo.

“Eu também não me esquecerei de você, menino. Jamais. Estarei aqui, à sua espera, quando o seu ônibus estacionar.” Em troca, ele lhe entregou uma rosa vermelha, que ela guarda dentro de um livro da adolescência.

Nos primeiros meses, a troca de cartas era constante. Saudades, sentimentos e histórias. Nomes antes desconhecidos por ambos eram citados nos relatos cotidianos. “Mas queria mesmo que você estivesse aqui”, escreviam sempre. Era o desejo do casal. Um desejo calado pelo tempo. Afastaram-se. Afazeres. Trabalhos, escola. Provas, leituras, novas companhias. Dois anos se passaram até que a última mensagem de Marcos chegasse a Maria.

“Não é justo. Não posso te manter presa a mim. Minha vida mudou completamente. Não me vejo retornando à rotina até então conhecida por nós dois. Sinto que ficarei por aqui, Maria. E torço, acima de tudo, por sua felicidade. Grande beijo. Marcos.”

Uma mancha ainda é visível no canto direito da carta, abaixo da assinatura. A primeira reação de Maria ficara registrada com as letras de Marcos. Limpou os olhos. Seus sentimentos variaram entre tristeza, leveza e revolta. “Como ele pode determinar o que é melhor para mim? Ninguém pode escolher pelo outro. Pode ser que haja outra pessoa.” A resposta, ela nunca soubera.

Nove e cinquenta e nove. Um ônibus, que lembrava o de Marcos, estava no sinal. Faltavam alguns segundos para chegar ao ponto onde ela esperava sentada. Trinta anos. O cigarro queimava entre seus dedos. A pele amarelada estava acostumada. O coração de menina novamente pulsava em seu peito.

Dez horas. Em ponto. Sem atrasos, desculpas ou desistências. Levantou-se. Pelas janelas, avistou os passageiros. Apenas cinco ocupavam as cadeiras. Dois homens, uma mulher e um casal de idosos, que conversava animadamente. Trinta anos de espera. Esperança vã.

“Aguarde um pouco. Só um pouco.”

A voz do seu menino continuaria a ecoar em sua cabeça por outros anos. Talvez mais trinta. Ou dez. Por dias. Até o último minuto.

“Falta pouco”, pensou. “Só um pouco.”

 

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João Vicente Alvarenga vai, vê e conta o Ocupa TB

A semana encurtada amanhã pelo feriadão de Corpus Christi, termina bem para os artistas de Campos que ocuparam desde o dia 9 (aqui) o Teatro de Bolso Procópio Ferreira. Como anunciou aqui o jornalista Alexandre Bastos, hoje foi publicado no Diário Oficial (DO) a homologação do contrato para instalação do sistema de refrigeração do teatro. Não custa lembrar que, no dia 13, na segunda de suas três reuniões com os artistas, o secretário de Governo Anthony Garotinho (PR) se comprometeu aqui a reabrir o TB dentro de 45 dias, prazo que vence no final de junho.

Muito além das promessas do poder público municipal, quem ontem esteve visitando a ocupação foi um velho conhecido do TB: o professor João Vicente Alvarenga. Ex-companheiro de teatro dos ex-atores Garotinho e Rosinha (PR), além de autor do livro “Três Atos da História do Teatro em Campos” (1993), ele atendeu ao convite da atriz Adriana Medeiros e ao conselho deste blogueiro, num longo e prazeroso debate gerado aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, sobre questionamentos (aqui) à pauta protocolada pelo Ocupa TB junto à Prefeitura de Campos.

Inicialmente crítico ao movimento, daquilo que João Vicente viu com os os próprios olhos, ninguém pode pode falar melhor, nem com mais conhecimento do teatro de Campos, do que o próprio:

 

 

(Foto do blog “Ocinei Trindade escreve”)

(Foto do blog “Ocinei Trindade escreve”)

 

 

Professor João Vicente Alvarenga (reprodução de Facebook)

Professor João Vicente Alvarenga (reprodução de Facebook)

Como viver um paradoxo?

Por João Vicente Alvarenga

 

Tivemos muitos motivos para mostrar nossa revolta, agressividade, com um apurado instinto de defesa. Éramos párias dependentes da prática teatral! Uma ditadura militar (1964/85) no auge de sua arrogância e violenta atuação contra a arte e a cultura. Nossa geração se sentia acorrentada, com os movimentos limitados. Mas, de dentro de nossas entranhas brotava um sentimento de liberdade, um conceito de vida sem limites, que nos permitiu expressar um bom punhado de emoções e desejos.

Fazer teatro na rua era uma opção, bem de acordo com o espírito libertário. Mas, ter um teto sob o qual poder desenvolver uma produção teatral era também uma opção. O Teatro Escola de Cultura Dramática, grupo liderado por Orávio de Campos Soares, fez uma ocupação consensual do Teatro de Bolso no início dos anos 70.

Éramos aproximadamente umas 40 pessoas e fomos, com o tempo, aumentando. A idade dos integrantes do Teatro Escola variava entre 12 e 40 anos de idade. Essa conquista, essa ocupação, foi por autorização da presidente da Arta (Associação Regional de Teatro Amador), a atriz Tércia Gomes, em consideração a Orávio, fundadores da Arta, juntamente com outros artistas.

A juventude, quando provocada, é capaz de qualquer coisa. A ameaça e a provocação poderiam vir de onde menos se esperava. Nos sentíamos seguros em grupo, em convivência diária, dentro do Teatro de Bolso, que se transformou em residência de cada um de nós. Uma divertida comunidade, e a força e a ousadia jorravam naturalmente, junto com um intenso instinto de criação.

Não tinha hora para estarmos no Teatro de Bolso: a qualquer hora, a qualquer dia. Poderia ser de manhã, de tarde, de noite, de madrugada, de domingo a domingo. Assim, nos conhecíamos, conversávamos, recebíamos novatos, cantávamos, ensaiávamos, discutíamos textos, criávamos textos etc. Muitas ideias surgiam dessa intensa troca epidérmica. Toda essa movimentação despertou a atenção da presidente Tércia Gomes e do diretor do departamento de Cultura da PMC, poeta Prata Tavares, temendo algum distúrbio que poderia decorrer dessa ausência critérios de utilização daquele espaço.

Ao mesmo tempo, a comunidade já se referia a nós como “um bando de veados, maconheiros, piranhas”. Não cabe aqui discutir isso. Discutir isso é estar admitindo esses epítetos. Foi a ocupação de um grupo hegemônico que muito se doou, se sacrificou para sustentar a ideia do teatro entre estudantes e todos os públicos.

Estamos vivenciando hoje uma ocupação do Teatro de Bolso, que deveria receber a devida atenção da inominável dama de nossa cultura, que se esqueceu de um tão conhecido e batido dito popular: “o povo unido, jamais será vencido!”. E eu acrescento: unido e organizado, jamais será vencido. Aprende essa, inominável criatura.

Em um artigo que publiquei no face, chamei essa ocupação de “ilegítima” e “bastarda” sem explicar e ressaltar o valor positivo que quis imprimir aos adjetivos. Aos olhos do poder público municipal, os agentes sociais e artistas envolvidos no ato de ocupação do Teatro são as ovelhas negras, filhos ilegítimos, bastardos de nossa planície goitacá.

Fiz uma visita ao Teatro ocupado. Fiquei encantado, com jovens educados, solícitos, atenciosos, como o Saulo que se apresentou e me mostrou como a ocupação estava estruturada. Foi uma experiência muito agradável conhecer essa nova geração de artistas. Adriana Medeiros fez questão de estar comigo, cancelando outro compromisso agendado anteriormente, para me encontrar no Teatro de Bolso. Pessoa querida e respeitada entre os jovens.

A juventude é frágil e idealista. Empolgada e responsável. Ao contrário de nossa geração, que enfrentávamos um mostro (o Regime Militar), desencadeando em nós reações inesperadas e “desordeiras”, sujeitas à repressão. Esses jovens, que vi restaurar a vida no Teatro, de forma ordenada e disciplinada, são doces, amáveis, responsáveis. Essa juventude frágil e idealista é propositiva, quer mostrar seu trabalho, nas diferentes linguagens. Até então, o Teatro estava refém para satisfazer interesses e caprichos exclusivos da inominável dama da cultura.

Essa juventude frágil e idealista é robusta porque conseguiu erguer os princípios vitais que controlam a saturação de vitalidade que deve se fazer presente em qualquer ambiente onde estejam a arte e a cultura. Cultuar a apatia e a morte num espaço público, que deveria ser oferecido generosamente aos artistas, para esta perfeita simbiose, que acontece quando a arte se instala em lugar que lhe é destinado.

Rosinha, Garotinho, vocês se perderam em meio à arrogância, prerrogativa do poder. Por que desrespeitar os artistas, desconsiderá-los, não cumprindo a agenda de reuniões no Teatro de Bolso? Vocês se esqueceram de que já estiveram do lado onde hoje estão a nova geração de artistas, e pelos mesmos motivos do passado? Que paradoxal! Que ironia do destino, que coloca vocês em grande dificuldade, diante de um problema tão pequeno: equipar o teatro adequadamente e disponibilizá-lo aos artistas.

 

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Papelaria fantasma

charge 25-05-2016

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