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Bispos de Campos advertem sobre “agrupação religiosa que visa um projeto de poder”

Os dois bispos da Igreja Católica Romana em Campos, Dom Roberto Francisco Ferreria Paz e Dom Fernando Arêas Rifan, emitiram um comunicado orientando seus fieis a refletirem sobre seus votos na próximo domingo, no segundo turno das eleições a presidente da República e a governador do Rio. Em relação à esta última, tudo indica que os católicos assumiram seu posicionamento contrário à candidatura do senador Marcello Crivella (PRB), sobrinho do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e proprietário da TV Record:

— Um dos candidatos que concorre ao governo do Estado, pela sua vinculação a uma agrupação religiosa que visa um projeto de poder, que se comporta de forma intolerante com as religiões e aparelha as Instituições Públicas, constitui um sério risco.

Confira abaixo a nota em sua íntegra:

 

Bispos advertem

 

 

 

Você vota em Dilma ou Aécio? Por quê?

Gustavo SoffiatiEleitor de candidatos do Psol em todas as esferas do Legislativo e do Executivo no primeiro turno, por coerência, para presidência, voto agora no PT. Falando especificamente como professor do ensino público, o que o PSDB fez em Minas ocorre em nosso Estado: orientados basicamente pela aprovação dos estudantes, lá e aqui, os tais planos de metas para gratificar ou não escolas e servidores, não garantem o aprendizado, mostrando uma qualidade que só existe nas estatísticas. Nos últimos 12 anos, quem vivenciou a evolução da rede federal de ensino ou chegou a ela, saindo das estaduais fluminense ou mineira, embora longe do melhor dos mundos, aterrissou noutro planeta, em termos de investimentos em estrutura física, carreira dos servidores e formação de alunos. Falando de forma geral, num período de crescimento do reacionarismo, entendo que a manutenção e a ampliação de importantes programas sociais e políticas de valorização do serviço público e de expansão de direitos humanos, que contemplam todos os segmentos da sociedade, só podem ser garantidas por Dilma Rousseff. Mesmo sabendo que por meio de incansáveis reivindicações conduzidas por setores progressistas, que, com a presidenta reeleita, negociariam com maior êxito.

(Gustavo Landim Soffiati, professor de História e Ciências Sociais)

 

Gustavo Oviedo1O Brasil vive um ciclo virtuoso em termos institucionais, econômicos e políticos. E, para mim, esse ciclo teve inicio em 1994. Portanto, vejo que a polarização entre o PSDB e o PT significa uma escolha entre o que há de melhor na política nacional. Escândalos de corrupção não são determinantes como critérios de indignação — nenhum partido é virgem nesse sentido. Assim, fico fora da demonização de uns e a santificação dos outros. Por sua vez,  no que diz respeito às propostas, ambos grupos dizem que irão melhorar o que já está. Não há posicionamentos diferenciados, praticamente, sobre nenhum assunto (para bem e para mal). Em definitiva, trata-se de eleger entre duas opções cuja oscilação desde o centro é mínima — apenas os militantes acreditam que o PSDB é a direita e o PT, o socialismo. Entretanto, a tentação autoritária se acrescenta na medida em que se permanece no poder, e o PT já está dando mostra disso, através de bolivarianismos como o controle social da mídia, intervenção de movimentos sociais na gestão de governo, e um crescente desprezo pela classe média. Tudo isto permanecia latente em certos setores radicais do PT, mas, depois de 12 anos, começa a permear nos moderados.  Por isso vou de Aécio. Nada como a alternância para manter a sensatez na política.

(Gustavo Alejandro Oviedo, advogado e publicitário)

 

 

 

Gesticulou em direção ao horizonte, tombando parte da sua cerveja

Leito do Paraíba do Sul no domingo de sol de ontem (foto de Valmir Oliveira - Folha da Manhã)

Leito do Paraíba do Sul no domingo de sol de ontem (foto de Valmir Oliveira – Folha da Manhã)

 

 

Jornalista e escritora Paula Vigneron

Jornalista e escritora Paula Vigneron

Um cândido Severino

Por Paula Vigneron

 

“E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina.” Severino Cândido. Quarenta e nove anos de idade. No próximo ano, o pernambucano completará 50. Com olhos verdes e emoção à flor da pele, ele saiu de Ribeirão, cidade de Pernambuco, em um caminhão. Não sabia para onde estava indo. Não sabia se conseguiria chegar. Apenas embarcou na carroceria do veículo para seguir viagem e buscar uma nova realidade. Em 1994, chegou a Campos dos Goytacazes, o maior município do interior do estado do Rio de Janeiro. Parou em um posto, na rodovia BR-101, em frente ao Hospital Ferreira Machado.

“Para onde tu vai?”, perguntou o caminhoneiro, que oferecera carona a Severino sem sequer conhecer o homem, na chegada a Campos.

Ao olhar ao seu redor e se deparar com uma cidade desconhecida, apesar de encorajado pela busca da promessa de uma nova vida, sentiu-se perdido. Não tinha casa, comida e família. Deixara os seus no distante Ribeirão para realizar os sonhos da juventude. Mas, ao pousar em solo campista, não sabia responder ao questionamento de seu companheiro. Olhou para o céu e viu a lua de São Jorge, que iluminava a planície goitacá.

“Eu vou para onde o dono daquela lua quiser”, afirmou, apontando para o céu.

“Então você vai para a minha casa”, convidou o caminhoneiro, levando consigo o novo colega e suas marcas de 29 anos de vida.

Com os olhos marejados, sobre um banco de areia à margem do rio Paraíba do Sul, Severino relembra a chegada a um local estranho, em um estado novo. “Conheço esse Brasil. Já passei por 16 estados. Aprendi a cultura e a culinária de cada lugar. Não sei ler. Se você me perguntar o que é um ‘o’, vou te responder que é a boca do copo”, e sorriu, apontando para a cerveja em sua mão. “O que você sabe por leitura, eu sei por ter vivido.”

Cercado por amigos campistas e pelo filho Gabriel, de 10 anos, que brincava no rio, Severino sorria ao reviver detalhes de sua história. Quando chegou a Campos, recebeu uma enxada e a possibilidade de trabalhar com corte de cana de açúcar. “Não aceitei. Fazia isso em Pernambuco e queria algo diferente. Aí virei metalúrgico. Trabalho com isso há 15 anos. Não tenho estudo, mas muita gente aprendeu comigo. Eles estão por aí, em empresas, e aprenderam tudo comigo”, conta, enquanto as lágrimas insistem em rolar pelo rosto cansado e sorridente.

O nordestino não se arrependeu de sua mudança para outra realidade. Os sonhos não se realizaram como era seu desejo, mas diz-se feliz e agradecido por tudo o que construiu nos últimos anos. “Já tive muito dinheiro. Cem reais, para mim, eram troco. O que você considera dinheiro, para mim, era somente troco. Perdi tudo. Sei que, um dia, Deus vai me restituir.”

Severino construiu família em Campos. Divorciado, o pernambucano tem seis filhos. “E eu tenho uma filha doutora”, grita para os amigos, com expressão de orgulho no olhar ao se lembrar da formação de uma de suas meninas. “Eu não estudei, mas ela é formada em Química. Nem mora aqui. Vive em Pernambuco e trabalha no Suape”, gesticulou em direção ao horizonte, tombando parte de sua cerveja.

Pouco antes, Gabriel, o filho caçula, de 10 anos, se aproximou e pediu ao pai para ir embora. Estava cansado por ter brincado durante tanto tempo nas águas do Paraíba. “Aqui, filho, pegue o seu chinelo e pode ir.” Severino, então, recomendou a um amigo que o entregasse com cuidado à ex-mulher, mãe da criança. “Ele e outros três nasceram aqui. Os outros, mais velhos, não”, revelou.

Ao observar para o Rio Paraíba do Sul, que enfrenta a pior seca dos últimos 90 anos, Severino se lembrou do seu Nordeste. Nada se assemelha ao que passou no estado. “Isso aqui é felicidade. Olho para o rio e fico alegre. Já passei fome, já passei sede. Você não sabe o que é ter que andar por mais de seis horas para conseguir um balde d’água. Sabe o que é ficar seis horas sem beber nada? Agora imagine o que é isso debaixo do sol”, recordou, limpando os olhos com as mãos calejadas. “Agora, é diferente. Se eu quero água, ando cinquenta metros e volto com ela para casa.”

“Sabe, menina, não tem gente com fome que não tenha alimentação na minha casa. Conheço vida, fome e sede. Você não sabe como é ver um pão e não poder comprar. Você não sabe como é a fome quando vê alguém comendo e não pode comer também. Ela aumenta. É muito triste.” Emocionado, o nordestino tenta, em vão, segurar as lágrimas. Olha para os lados ao respirar fundo em uma tentativa de conter a emoção.

Severino vive no terreno da Usina São João, em frente ao Paraíba. À noite, o metalúrgico vai ao rio para pescar e se distrair. Com a seca, transforma a areia, por onde corriam as águas do rio há pouco tempo, em um ponto de diversão. “É um lazer muito gostoso. Pode colocar no jornal que essa é a ‘área da Cabeça da Coroa’. Vamos oficializar como área de lazer aos domingos”, brincou, no momento da chegada da equipe ao local.

Em um gesto cordial, ao final da entrevista, o homem chamou-me para perto e sussurrou. “Quando você quiser alguma coisa, qualquer coisa, peça a Deus. É assim que tem que ser. E sempre em pensamento para ninguém ouvir”, ensinou-me. “Isso aqui, tudo isso aqui, é passageiro. Nada disso faz diferença na minha vida mais”, afirmou, ao esticar a mão para me cumprimentar, com o largo sorriso característico de um brasileiro que, apesar das dores, agradece sempre por mais um dia de vida.

 

Publicado aqui, no Recanto das Letras

 

 

Qual Lula é o verdadeiro? O educado da propaganda ou o moleque de rua dos comícios?

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Jornalista Ricardo Noblat

Jornalista Ricardo Noblat

Uma tremenda molecagem

Por Ricardo Noblat

 

Qual Lula é o verdadeiro?

O bem educado que aparece no programa de propaganda eleitoral de Dilma na televisão, defende os 12 anos de governos do PT e, ao cabo, sorridente, pede votos para reeleger sua sucessora?

Ou o moleque de rua que pontifica em comícios país a fora, sugerindo, sem ter coragem de afirmar diretamente, que Aécio é capaz, sim, de dirigir embriagado, agredir mulheres e se drogar?

O segundo é o mais próximo do verdadeiro Lula. Digo por que o conheço desde quando era líder sindical. Lula é uma metamorfose ambulante. Não foi ninguém quem o disse, foi ele quem se rotulou assim.

A esquerda tudo perdoaria a Lula desde que chegasse ao poder. Chegou, cavalgando-o. Uma vez lá, se corrompeu. Quanto a ele… Não sabia de nada. Nunca soube.

Justiça seja feita a Lula: por desconhecimento de causa e preguiça, ele jamais compartilhou as ideias da esquerda. Assim como ela se aproveitou dele, Lula se aproveitou dela. Um casamento não por amor, mas por interesse.

Na primeira reunião ministerial do seu governo em 2003, Lula se irritou com um ministro e desabafou: “Toda vez que me guiei pela esquerda me dei mal”.

Retifico: ele não disse que se deu mal. Usou um palavrão. Nada demais para o sujeito desbocado que nunca pesou o que diz. Grossura nada tem a ver com infância pobre.

Lula é um sucesso do jeito que é. Mudar, por quê? Todos admiram sua astúcia. Muitos se curvam à sua sabedoria. E outros tantos temem ser apontados como desafetos do retirante nordestino que se deu bem.

Uma das chaves do sucesso de Lula é a coragem de dizer o que lhe apetece — às favas a verdade.

No último sábado, em comício em Belo Horizonte, Lula disse que nunca foi grosseiro com adversários.

Textualmente: “Não tive coragem de ser grosseiro contra Collor, Serra, Alckmin, Fernando Henrique. Pega uma palavra minha chamando candidato de mentiroso e leviano”. É fácil.

Lula chamou Sarney de ladrão. E Itamar Franco de filho da puta.

Resposta de Itamar em maio de 2003: “Gostaria de saber o que aconteceria se a situação fosse inversa, ou seja, se esse indivíduo arrogante e elitista fosse o presidente da República e alguém lhe chamasse disso. (…) Minha mãe se chamava Itália Franco. Mas fosse um filho da p., certamente teria por ela o mesmo amor filial”.

Você pensa que Lula ficou constrangido com a resposta de Itamar? Foi ao velório dele. Assim como foi ao velório de Ruth Cardoso, mulher de Fernando Henrique. Chorando, lançou-se aos braços do ex-presidente.

Pouco antes da morte de Ruth, a Casa Civil da então ministra Dilma montara um dossiê sobre despesas com cartão de crédito do casal FH. Depois, a ministra se desculpou.

Lula não é homem de se desculpar. Nem mesmo quando trata um assessor a pontapés. Como governador de Minas Gerais, no auge do escândalo do mensalão, Aécio lutou para que o PSDB não pedisse o impeachment de Lula. Conseguiu.

Mais tarde, Lula tentou convencê-lo a aderir ao PMDB para disputar a presidência com o seu apoio. Aécio não quis.

De volta ao comício de Belo Horizonte.

Antes de Lula falar, foi lida a carta de uma psicóloga acusando Aécio de espancar mulheres e de ser megalomaníaco. Ele ainda foi chamado de “coisa ruim”, “cafajeste” e “playboy mimado”.

Por fim, a plateia foi ao delírio ao ouvir Lula dizer sobre o comportamento de Aécio em debates: “A tática dele é a seguinte: vou partir para a agressão. Meu negócio com mulher é partir para cima agredindo”.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

 

De quando o tucanato deu graus variáveis de solidariedade e silêncio

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Jornalista Elio Gaspari

Jornalista Elio Gaspari

Todos soltos, todos soltos, até hoje

Por Elio Gaspari

 

Nos debates medíocres da Bandeirantes e da SBT, em que Dilma Rousseff parecia disputar a Presidência com Fernando Henrique Cardoso, e Aécio Neves parecia lutar por um novo mandato em Minas Gerais, houve um momento estimulante. Foram as saraivadas de cinco “todos soltos” desferidas pela doutora.

Discutia-se a corrupção do aparelho petista, e ela arrolou cinco escândalos tucanos: “Caso Sivam”, “Pasta Rosa”, “Compra de votos para a reeleição de FHC”, “Mensalão tucano mineiro” e “Compra de trens em São Paulo”. A cada um, ela perguntava onde estavam os responsáveis e respondia: “Todos soltos”. Faltou dizer: todos soltos, até hoje.

Não foi Dilma quem botou a bancada da Papuda na cadeia, foi a Justiça. Lula e o comissariado petista deram toda a solidariedade possível aos companheiros, inclusive aos que se declararam “presos políticos”.

Aécio também nada tem a ver com o fato de os tucanos dos cinco escândalos estarem soltos. Eles receberam essa graça porque o Ministério Público e o Judiciário não conseguiram colocar-lhes as algemas. O tucanato deu-lhes graus variáveis de solidariedade e silêncio.

Pela linha de argumentação dos dois candidatos, é falta de educação falar dos males petistas para Dilma ou dos tucanos para Aécio. Triste conclusão: quando mencionam casos específicos, os dois têm razão. A boa notícia é que ambos prometem mudar essa escrita.

A doutora Dilma listou os cinco escândalos tucanos, todos do século passado, impunes até hoje. Vale relembrá-los.

• Caso Sivam

Em 1993 (governo Itamar Franco), escolheu-se a empresa americana Raytheon para montar um sistema de vigilância no espaço aéreo da Amazônia. Coisa de US$ 1,7 bilhão, sem concorrência. Dois anos depois (governo FHC), o “New York Times” publicou que, segundo os serviços de informações americanos, rolaram propinas no negócio. Diretores da Thomson, que perdera a disputa, diziam que a gorjeta ficara em US$ 30 milhões. Tudo poderia ser briga de concorrentes, até que um tucano grampeou um assessor de FHC e flagrou-o dizendo que o projeto precisava de uma “prensa” para andar. Relatando uma conversa com um senador, afirmou que ele sabia “quem levou dinheiro, quanto levou”. O tucano grampeado voou para a embaixada do Brasil no México, o grampeador migrou para o governo de São Paulo, e o ministro da Aeronáutica perdeu o cargo. Só. FHC classificou o noticiário sobre o assunto como “espalhafatoso”.

• Pasta Rosa

Em agosto de 1995, FHC fechou o banco Econômico. Estava quebrado e pertencia a Angelo Calmon de Sá, um príncipe da banca e ex-ministro da Indústria e Comércio. Numa salinha do gabinete do doutor, a equipe do Banco Central que assumiu o Econômico encontrou quatro pastas, uma das quais era rosa. Nelas, estava a documentação do ervanário que a banca aspergira nas eleições de 1986, 1990 e 1994. Tudo direitinho: 59 nomes de deputados, 15 de senadores e dez de governadores, com notas fiscais, cópias de cheques e quantias. Serviço de banqueiro meticuloso. Havia um ranking com as cotações dos beneficiados, e alguns ganharam breves verbetes. No caso de um deputado registravam 43 transações, 12 com cheques.

Nos três pleitos, esse pedaço da banca deve ter queimado mais de US$ 10 milhões. A papelada tornara-se uma batata quente nas mãos da cúpula do Banco Central. De novo, foi usada numa briga de tucanos, e deu-se um vazamento seletivo. Quando se percebeu que o conjunto da obra escapara ao controle, o assunto começou a ser esquecido. FHC informou que os responsáveis pela exposição pagariam na forma da lei: “Se for cargo de confiança perdeu o cargo na hora, se for cargo administrativo será punido administrativamente”. Para felicidade da banca, deu em nada.

• A compra de votos para a reeleição

Em maio de 1997, os deputados Ronivon Santiago e João Maia revelaram que cada um deles recebera R$ 200 mil para votar a favor da emenda constitucional que criou o instituto da reeleição dos presidentes e governadores. Ronivon e Maia elegiam-se pelo Acre e pertenciam ao PFL, hoje DEM. Foram expulsos do partido e renunciaram aos mandatos. Ronivon voltou à Câmara em 2002. De onde vinha o dinheiro, até hoje não se sabe.

• O mensalão tucano mineiro

Em 1998, Eduardo Azeredo perdeu para o ex-presidente Itamar Franco a disputa em que tentava se reeleger governador de Minas Gerais. Quatro anos depois, elegeu-se senador e tornou-se presidente do PSDB. Em 2005, quando já estourara o caso do mensalão petista, o nome de Azeredo caiu na roda das mágicas de Marcos Valério. Quatro anos antes de operar para o comissariado, ele dava contratos firmados com o governo de Azeredo como garantia para empréstimos junto ao Banco Rural (o mesmo que seria usado pelos comissários.) O dinheiro ia para candidatos da coligação de Azeredo. O PSDB blindou o senador, abraçou a tese do “caixa dois” e manteve-o na presidência do partido durante três meses. Quando perdeu a solidariedade de FHC, Azeredo disse que, durante a disputa de 1998, ele “teve comitês bancados pela minha campanha”. Em fevereiro passado, o Supremo Tribunal Federal aceitou a denúncia do procurador-geral contra Azeredo, e ele renunciou ao mandato de deputado federal (sempre pelo PSDB). Com isso, conseguiu que o processo recomeçasse na primeira instância, em Minas Gerais. Está lá.

 A compra de trens em São Paulo

Assim como o Caso Sivam, o fio da meada da corrupção para a venda de equipamentos ao governo paulista foi puxado no exterior. O “Wall Street Journal” noticiou em 2008 que a empresa Alstom, francesa, molhara mãos de brasileiros em contratos fechados entre 1995 e 2003. Coisa de US$ 32 milhões, para começar. O Judiciário suíço investigava a Alstom e tinha listas com nomes e endereços de pessoas beneficiadas. Um diretor da filial brasileira foi preso e solto. Outro, na Suíça, também foi preso e colaborou com as autoridades. Um aspecto interessante desse caso está no fato de que a investigação corria na Suíça, mas andava devagar em São Paulo. Outras maracutaias, envolvendo hierarcas da Indonésia e de Zâmbia, resultaram em punições. Há um ano, a empresa alemã Siemens, que participava de consórcios com a Alstom, começou a colaborar com as autoridades brasileiras e expôs o cartel de fornecedores que azeitava contratos com propinas que chegavam a 8,5%. Em 2008, surgiu o nome de Robson Marinho, chefe da Casa Civil do governo de São Paulo entre 1995 e 2001, nomeado ministro do Tribunal de Contas do Estado. Em março passado, os suíços bloquearam  uma conta do doutor num banco local, com saldo de US$ 1,1 milhão. Ele nega ser o dono da arca, pela qual passaram US$ 2,7 milhões (Marinho tem uma ilha em Paraty). O Ministério Público de São Paulo já denunciou 30 pessoas e 12 empresas. Como diz a doutora, “todos soltos”.

 

Publicado aqui, na Folha de São Paulo

 

 

Você vota em Aécio ou Dilma? Por quê?

Christiano Abreu BarbosaO governo atual, de Dilma Rousseff, candidata à reeleição, teve um desempenho pífio na economia nos 4 anos de mandato dela.

O país apresentou baixo crescimento, com a economia tendo o pior crescimento médio dos últimos 3 presidentes, perdendo para Lula e FHC.

Além de não fazer o país crescer adequadamente, o governo de Dilma não controlou a inflação como deveria, corroendo o poder de compra dos brasileiros.

O país apresentou crescimento negativo pelo segundo trimestre seguido, configurando uma recessão técnica.

O ministro da Fazenda de Dilma, Guido Mantega, que deveria cuidar da economia do pais, é o que ficou mais tempo no cargo e o mais incompetente desde o fim da ditadura.

Dilma não apresentou nenhuma solução para os problemas da saúde, educação e segurança pública.

Loteou a Petrobras entre políticos incompetentes permitindo que a empresa fosse literalmente saqueada.

Por isso ela não merece uma nova chance.

Entre as outras opções, Aécio Neves, governador de sucesso em Minas Gerais por oito anos, é o melhor nome para recolocar o país nos trilhos, em especial a economia.

Tem a experiência administrativa, a equipe e a estrutura partidária necessária.

(Christiano Abreu Barbosa, empresário pós-graduado na Universidade de Ohio e blogueiro)

 

José Luiz Vianna da CruzMinha perspectiva de um governo federal vai para além dos dois candidatos. Tenho dificuldade em aceitar que não se possa avançar nas coalizões recentes que têm dado suporte aos governos federais pós-ditadura. Porque, com essas coalizões, interesses corporativos e clientelistas inaceitáveis se perpetuam, o que dificulta políticas públicas mais republicanas, impessoais e universais. Haveria que meter uma cunha nesses grupos corporativos e fortalecer as alas mais republicanas, progressistas e comprometidas com o interesse púbico e universal, inclusive dentro do PT.

A partir dos governos do PT, com todas as suas insuficiências, dificuldades e contradições, alguns conflitos vinculados à origem civilizatória da nossa sociedade, ficaram mais nítidos, mais públicos e acirrados, o que é altamente positivo e um dos maiores serviços que a Era PT prestou ao país. Um deles é o conflito entre o público e o privado em que a interferências dos interesses privados é tão grande que paralisa a realização do interesse público e social; com o PT o atendimento ao interesse público cresceu muito, a presença do Estado na garantia desses interesses aumentou, o que acho correto. Outro é entre um país em que prevalece “para a elite tudo, para os menos favorecidos, nada”, no acesso aos bens, serviços, estrutura e equipamentos públicos.

Os governos do PT legaram uma legislação, um conjunto de políticas públicas, uma estrutura e uma dinâmica institucionais que são uma verdadeira revolução em relação ao que existia.

(José Luiz Vianna da Cruz, professor, diretor aposentado da UFF-Campos e coordenador de Mestrado da Cândido Mendes)

 

 

“Meninas de Guarus” — Ainda virão muitos esclarecimentos à superfície

Meninas de Guarus 1

 

 

 

Jornalista e blogueiro Gustavo Matheus

Jornalista e blogueiro Gustavo Matheus

Muita calma nessa hora

Por Gustavo Matheus

 

O mais sensato talvez fosse ficar quieto e deixar o vendaval de desinformações, pré-julgamentos e análises distorcidas assentar, mas infelizmente não consigo. Sei também que não sou a pessoa mais imparcial para comentar o que considero uma tremenda covardia, e um carnaval de interesses, para atingir um político que vivia um momento ascendente em sua carreira, mas ninguém que o conhece jamais será.

A situação é delicada, já que o caso Meninas de Guarus repugna qualquer um. Trata-se de um aglomerado de crimes hediondos e perversos, cometidos pela escória dos marginais, que ultrapassam a sensibilidade de toda gente da comunidade. Porém, independente do nosso sentimento de revolta, não podemos ser levianos. Alguns abutres com agenda política sobre o caso insistem em promover uma pública crucificação, bem precoce. Os mais lúcidos precisam interferir e analisar com calma. Até porque, não há dúvidas de que a situação virá a ser esclarecida em breve. Infelizmente, a mácula atrelada à imagem de Nelson Nahim já foi feita, e não há juiz ou júri que o inocentem do preconceito popular. Sequer sabemos qual seria a sua suposta participação no escândalo, se é que houve alguma, e ainda assim algumas pessoas não hesitam em bradar “pedófilo”. Nelson é um político respeitado, mas antes disso é um pai, marido, avô, irmão, tio e filho. E com este movimento circense promovido por alguns, as pessoas acabam se esquecendo de que quem mais sofre é a família.

Sem um julgamento e, muito menos uma condenação, não há culpado. E deste nefasto episódio ainda virão muitos esclarecimentos à superfície. Só espero, de coração, que esta não seja apenas uma agenda para prejudicar alguém que vinha numa crescente na região, como principal personagem da oposição junto com outros nomes, e que estes crimes hediondos, praticados por covardes, sejam apurados com afinco. A investigação não pode recuar agora. Não interessa o nome de quem esteja no tal inquérito, a justiça tem que ser feita em sua plenitude. Fazer pose, transformar a situação em um circo político, é fácil. Quero ver mesmo é esse imbróglio chegar ao fim, com os criminosos, os verdadeiros criminosos, respondendo pelos seus crimes. A justiça tem que ser feita. O ministério público não pode se dar por satisfeito, pois houve de tudo até agora, durantes estes cinco anos, menos justiça.

 

Publicado hoje na Folha

 

 

Tentar fazer Dilma de coitada já não tinha funcionado desde a Copa do Mundo

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Jornalista Merval Pereira

Jornalista Merval Pereira

Vitimização de Dilma

Por Merval Pereira

 

O truque já foi usado uma vez, recentemente, e não funcionou, ao tentarem fazer da presidente Dilma uma coitadinha quando foi vaiada na abertura da Copa do Mundo no Itaquerão. Nada indica que funcionará desta vez. Transformar a presidente Dilma em uma senhora delicada que foi tratada com grosseria por seu adversário Aécio Neves no debate do SBT na quinta-feira, não é um relato fiel do que aconteceu, nem faz jus à história da presidente e do PT. Beira o ridículo.

O mal-estar da presidente a final do debate pode ter sido provocado pelo calor da discussão e do estúdio de televisão, e prenuncia uma fragilidade emocional dela, conhecida por seu vigor verbal, digamos assim. Ontem, Dilma, antes de adiar uma vinda ao Rio ” a conselho médico” que depois foi desmentido, disse algo como “o PT não é de briga, mas sabe enfrentar desafios”. Nada menos verdadeiro.

Ao contrário, o PT só sabe fazer política na base do confronto, precisa de um inimigo para mobilizar seus militantes, que andam meio desanimados ultimamente. Esse clima de guerra permanente foi instalado pelo PT no país, que não sabe fazer política sem radicalizar. A prática do “nós contra eles”, aprofundada nesta campanha com uma tentativa de jogar o PSDB contra os nordestinos, acaba levando a exacerbações.

Na ocasião da abertura da Copa escrevi que a grosseria é um problema nosso, de uma sociedade que precisa encontrar novamente o caminho da civilidade e da convivência pacífica entre os contrários. A vaia é um problema da presidente Dilma e do PT. Naquela ocasião, a presidente Dilma passou a ser tratada como uma senhora frágil e desacostumada a essa linguagem, quando ela própria já demonstrou, em reuniões com ministros e empresários, que sabe lidar com esse tipo de problema. Que o digam os ministros que já saíram chorando de seu gabinete depois de uma boa espinafração, muitas vezes com uso de palavras nada convencionais.

O ex-presidente Lula voltou a tentar o truque depois do debate do SBT, dizendo que “quando eu vejo um homem na televisão ser ignorante com uma mulher, como ele tem sido nos debates, eu fico pensando: se esse cidadão é capaz de gritar com a presidenta, fico imaginando o dia que ele encontrar um pobre na frente: é capaz dele pisar ou não enxergar”.

Lula evidentemente está fazendo baixa política, sem muita chance de dar certo. A própria presidente Dilma não dá razão para esse tratamento condescendente com ela, pois quando soube que a ex-candidata Marina Silva havia chorado ao ser atacada pela propaganda petista, saiu-se com esse comentário: “um presidente da República tem de resistir à pressão”.

Em discurso dirigido a movimentos negros em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, Dilma afirmou que quem não quer ser criticado “não pode ser presidente”.

— Um presidente da República sofre pressão 24 horas por dia. Se a pessoa não quer ser pressionada, não quer ser criticada, não quer que falem dela, não dá para ser presidente da República. Acho que, (para) ser presidente, a gente tem que aguentar a barra — disse Dilma.

Se a vitimização de Marina não teve sucesso, e ela só reagiu à altura dos ataques muito tempo depois, quando sua votação já se esvaía, agora o candidato do PSDB Aécio Neves está enfrentando  os mesmos ataques, o que coloca um dado novo na disputa presidencial. Na verdade, Aécio é o primeiro candidato tucano que enfrenta o PT sem receios, resgatando o legado de Fernando Henrique Cardoso e exorcizando de vez a demonização que o PT vem fazendo dos governos tucanos pelos últimos 12 anos.

Tanto Serra quanto Alckmin entraram na disputa contra o PT com receio de se indispor com Lula e seus seguidores, e tiveram dificuldades para defender as políticas do PSDB, quando não evitaram simplesmente temas polêmicos como as privatizações. A postura de Aécio Neves já mostrou que há um projeto político para enfrentar o lulismo, e defendê-lo não tira votos.

 

Publicado aqui, no Blog do Merval

 

 

Você vota em Dilma ou Aécio? Por quê?

Hélio CoelhoVoto em Dilma porque estou convencido de que o caminho para as grandes transformações no Brasil passa pelo reformismo social. Através da construção de um estado democrático de bem estar social (tipo Welfare State) ganharemos musculatura para outros embates mais profundos e revolucionários, lá na frente.

E não há como negar: as altas  taxas de inclusão social e a elevação do nível de vida das camadas populares, atestam o acerto das políticas sociais da era Lula-Dilma. Ainda que seja preciso melhorar questões de qualidade, a quantidade de brasileiros estudando em todos os níveis sinaliza para um futuro melhor para o nosso país em breve.

E mais: não foi a corrupção que cresceu com estão alardeando: é que nunca se apurou tanto e tão profundamente a corrupção, a ponto de cortar com a navalha própria carne do governo. E esse é o lado saudável desse processo! Claro que não vivemos no melhor dos mundos, há problemas e graves. Muitas questões são decorrência do nosso presidencialismo de coalizão, que não dá para aprofundar neste pequeno espaço. Mas a verdade é que avançamos e não podemos permitir o retrocesso que seria a volta do individualismo predatório, da fúria do mercado e do arrocho sobre o povo trabalhador que a vitória de Aécio Neves representa. Temos que dar, como dizia o Brizola, um rotundo Não a isso! Em 2003 a Petrobras era uma empresa que valia R$ 15,4 bilhões. Hoje, está avaliada em R$ 214 bilhões! Por isso e muito mais, voto Dilma 13.

(Hélio Coelho, professor, escritor e presidente da Academia Campista de Letras)

 

 

José Cunha FilhoVoto em Aécio Neves. Não necessitaria explicitar os motivos da minha opção. Estamos, apesar de todos os defeitos, numa democracia. Mas, para justificar, digo que é hora de tentar uma nova abordagem para velhos problemas que se acumularam nos anos petistas. A alternância é positiva, quando se trata de poder. Caso contrário, o país pode acabar com a “síndrome de Montezuma”, o partido único mexicano a se eternizar no governo. Além do mais, acredito que o Aécio tem o DNA de um novo Juscelino, o governante que despertou nos brasileiros a confiança de “que, sim, nós podemos”. Só quem viveu um país de economia fundamentalmente agrícola e o viu se transformar em uma nação industrializada, sabe do que falo. O Aécio pode obter a confiança dos que ainda acreditam construir um país moderno, não um país bursátil, onde impera o assistencialismo e a corrupção generalizada. Voto em Aécio como, mea culpa, máxima culpa, votei em Lula em sua primeira experiência no Planalto. Por ser preciso mudar, experimentar, apostar que é possível vencer as dificuldades que os meus netos herdarão com a incompetência e falta de visão com que o país foi tratado nos últimos 12 anos. Ainda há tempo para reverter a marcha para o abismo, o possível caos da implantação de um regime autoritário avalizado pelo voto popular, sonho dos que defendem a candidatura majoritária. Hitler tomou o poder via eleições, alguém se lembra?

(José Cunha Filho, jornalista, escritor e membro da Academia Campista de Letras)

 

 

O amor ficou naquele janeiro de 2003, onde Lula e FH trocaram juras que jamais serão

ódio

 

 

Jornalista Arnaldo Bloch

Jornalista Arnaldo Bloch

O discurso do ódio

Por Arnaldo Bloch

 

Pegadinha rápida: quem era a pessoa mais feliz no Brasil quando Lula foi eleito pela primeira vez, em 2002? Essa é fácil: Fernando Henrique Cardoso. O então presidente deu gelo em José Serra durante a campanha e cochichou publicamente que era a hora de Lula lá.

FH havia trazido a estabilidade e a base de muita coisa boa, mas acabou imerso na espuma fisiológica. Governou com aliados degenerados, e os sonhos tucanos mais libertários comungaram com a herança maldita dos anos de chumbo. Isso ocorreu pela impossibilidade de um amor platônico: a união PT-PSDB, sonhada por muita gente sensata dos dois lados.

Em êxtase cívico, FH deu um abraço de camarada em Lula e, na hora de passar a faixa, trêmulo, quase que se enforca na flâmula verde-amarela. O amor ficou ali, naquele momento nacional simbólico.

Aquela campanha de 2002 havia sido marcada, já, pelo chamado Discurso do Medo. Regina Duarte previa inflação de Alemanha pré-Reich, quando, em Berlim, se trocava uma batata por milhões de marcos. Lula teve que escrever uma carta, passou a usar terno fashion, implantou sorriso Kolynos, aparou a barba e juntou à estrela petista o lema dos hippies: Paz e Amor.

Assim a coisa andou. Não houve rupturas de contratos nem crise institucional. Com popularidade inédita, Lula, mesmo tentado, recusou o cálice autoritário e cedeu ao vigor democrático que já vinha irrigando o país.

Mas cedeu também à tal da base aliada com gosto de podrão, e, com crescimento alto, grana entrando, popularidade mantida, perdeu a chance de entubar o vicioso Congresso Nacional com as reformas política e tributária.

Porém, o país cresceu, distribuiu, os banqueiros ficaram na boa, a classe média, como sempre, ralou, mas seguimos. No campo político, houve retrocesso, e, em vez de lançar um paradigma de correção, Lula disse que é mesmo assim, que a gente bota a mão na lama e vai ser desse jeito por muito tempo.

O que vemos hoje? Passados quatro anos do governo da sua sucessora, o abismo se consolidou: PT e PSDB jamais estiveram tão longe. Na gritaria insana em que se transformou o debate, o que de bom houve nos anos FH-Lula parece um vapor distante. Dilma e Aécio parecem alunos com pirulitos.

Se estivessem num ringue, seriam apresentados como Dilma, do PT, república sindical que aparelhou o país e fez o que o PCB nunca conseguiu, isso dentro do jogo democrático, e hoje representa a esquerda totalitária. Do outro lado, Aécio, playboy da Zona Sul mais burguesa, à frente dos anseios do PSDB, partido que um dia inspirou grandes transformações, representa a direita e os liberais anarcocapitalistas de extrema.

O Discurso do Medo voltou na campanha do primeiro turno, mas, aos poucos, foi substituído por um outro discurso, mais perigoso: o Discurso do Ódio. É esse que predomina nas ruas, nas redes, no horário gratuito e nos debates. Se a esperança seria o antídoto ao medo, contra o ódio não há remédio.

Para Aécio — que, no primeiro turno, juntara-se a Dilma para massacrar Marina qual uma barata ecochata —, o país precisa se libertar do jugo da máfia vermelha. Para Dilma, o país precisa purgar o fantasma de uma extrema-direta preconceituosa que odeia pobres e planeja, na calada da noite, o holocausto das conquistas sociais. Comandados pelos seus candidatos, os eleitores se xingam, desfazem amizades, bloqueiam-se, fabulam (essa é a palavra da hora, e Goebbels virou carochinha), engolem excremento e, como numa batalha medieval, erguem espadas sedentas das jugulares do próximo.

No abismo fica um vazio: temas críticos são varridos para a base do vulcão. Não se fala de aborto. De células-tronco. De homofobia. De drogas, só sob o viés repressivo, virando as costas para o mundo.

Não se discutem políticas públicas. Bate-se na tecla dos escândalos que são endêmicos desde que o Brasil é Brasil. O PT é o escândalo em si, e o tucanato é uma espécie de Santa Sé (que, aliás, é boa de escândalo também). Ou, ao avesso, PT é a própria providência salvadora eterna da pátria, e o PSDB é o Reich às vésperas de anexar a Polônia e rumo a Moscou.

O que fica disso tudo? Tristeza. Melancolia. Um país partido em polos que podiam dialogar, mas duelam à morte. Para Dilma viver, o PSDB tem que morrer. Para Aécio sobreviver, o PT tem que ser varrido da História. Ganhando um ou outro, em que clima governará? De que maneira o brasileiro vai dialogar com si próprio, se não é capaz de trocar IDEIAS, só de impor a verdade final dos tempos?

Claro que o Brasil, e a democracia, vão, mais uma vez, sobreviver ao medo e ao ódio. Mas, seja qual for o resultado, o país provará da herança maldita do desamor. O amor ficou naquele janeiro de 2003, na rampa, onde Lula e FH trocaram juras que jamais serão.

 

Publicado aqui, na globo.com