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A San Diego Comic-Con foi bastante profícua para Zach Snyder. Em retiro criativo desde que desovou nos cinemas sua amada e odiada versão em live action de “Watchmen” (Idem, 1986-1987), o diretor, que já brindara os aficionados por quadrinhos com uma versão em carne osso de “Os 300 de Esparta” (“300”, 1998), mostrou no evento as primeiras imagens de seu mais novo projeto “Sucker punch”. O filme, que conta a história de Babydoll (Emily Browning), uma prisioneira de um hospício que cria um mundo imaginário como fuga, é extremamente importante para saber quem é Snyder, artisticamente falando. Até o momento, o diretor permaneceu debruçado sobre a obra alheia, uma vez que seu debut se deu em um remake, “Madrugada dos mortos” (“Dawn of the dead”, 2004), que reinterpretava “O despertar dos mortos” (“Dawn of the dead”, 1978), de George Homero. De tudo o que foi mostrado, porém, se sobressai, ainda, a preocupação estética do cineasta, que pode ser conferida tanto no site oficial do longa-metragem, quanto em sua primeira imagem, seis cartazes e primeiro trailer, todos divulgados na ocasião. Confira e opine. ![]() Crédito: Omelete ![]() Crédito: Omelete ![]() Crédito: Omelete ![]() Crédito: Omelete ![]() Crédito: Omelete ![]() Crédito: Omelete [Via Omelete]
Porém, as boas intenções de Lovell tropeçam nos interesses científicos da psicóloga Paula Olsen (Natasha Richardson), a quem ele próprio pede ajuda, e sua equipe. Sob os olhos do judiciário, eles têm um mês para descobrir se o melhor para Nell é ser deixada sozinha em seu mundo ou ser levada para uma instituição de tratamento adequada. Então, a dupla acaba por descobrir que a figura amedrontada e arredia, de aparente debilidade mental, é o símbolo de que a humanidade pode nascer e florescer nos locais mais adversos e que, não necessariamente, sua civilização é adequada para todos, embora os homens da ciência tenham certeza de que sim. Apesar da fragilidade da narrativa enquanto cinema, que chega a encarar, por vezes, o tema de forma mesmo pueril, a força da película reside – além da admirável fotografia de Dante Spinotti, que ressalta as belezas naturais dos cenários selvagens – na interpretação de Jodie Foster, que, entregue ao papel, dá corpo e voz a uma personagem que atesta a complexidade do papel da fala na formação do indivíduo com tal intensidade que nos faz ignorar as discrepâncias entre seu comportamento durante a primeira viagem à cidade e o discurso proferido próximo ao final do filme, baseado em raciocínios mais intrincados, que a fazem parecer conhecedora do sistema social vigente de forma mais completa que sua experiência poderia fazer supor. De fato, talvez pela complexidade do tema, depõe contra o filme, principalmente, a aparente indecisão da forma como Nell é tratada. Embora tenha sido criada pela mãe, que viveu em sociedade e conheceu as mazelas do mundo, que realizava compras periodicamente, como atesta a chegada do entregador que lhe encontra o cadáver, torna-se no mínimo estranho que Nell se comporte, por vezes, quase como um animal, a exemplo da cena em que Lovell lhe apresenta a pipoca ou naquela em que é assediada em um bar. Se a mãe lhe ensinava religião, se era sua única companhia e interlocutora, é perfeitamente plausível supor que, embora tenha demonstrado excesso de zelo ao manter a filha em casa, tenha falado, também, sobre outros assuntos do mundo, ou, ao menos, sobre os conceitos que o regem. Afinal, ela certamente questionaria quem entregava os mantimentos ou porque era trancafiada ao menor sinal da chegada de um estranho. Por fim, a regalia deveria ser paga, de forma que a mãe certamente deveria se ausentar para angariar fundos, fosse em um banco, fosse vendendo algo que produzira. De qualquer forma, levantaria dúvidas, dúvidas que tornam a Nell que decide seu destino mais convincente do que aquela que se deixa levar inocentemente por gestos, gostos, sons ou cheiros.
A introdução ganha peso ao se fazer sobre o relato de uma figura que foi, ela própria, abduzida pela máquina nazista e serve de ensejo a um breve prólogo que mostra a contratação da então jovem moça de Munique, em 1942. Após um salto de três anos, a narrativa passa ao tenso dia-a-dia no bunker que serviu como último refúgio de Hitler e bastião da defesa da capital alemã enquanto a guerra se arrastava pela superfície, levando o povo ao desespero e obrigando crianças a lançarem mão de armas e lutarem por cada palmo de terra em escombros. Com Clausewitz, o estado de exceção, instaurado, oficiais das Schutzstaffel, as temidas SS, incineram documentos e preparam sua retirada da cidade condenada, enquanto figurões da Wehrmacht, as forças armadas alemãs, e principalmente do Heer, o exército, tentam vencer a formação prussiana que lhes pesa sobre o instinto de autopreservação e persuadir Hitler, que segundo um deles movimenta tropas que só existem em seu mapa, a recuar e repensar sua estratégia, idéia prontamente repelida a base de acusações de traição e covardia. E se algumas delas procedem, outras não passam de delírio de uma mente minada pela paranóia. Pouco a pouco, seus associados se evadem, se negando a partilhar do trágico destino que o aguarda, e, enquanto aqueles com autoridade suficiente procuram negociar uma rendição por suas costas, resta aos subalternos obrigados a ficar o álcool e a alienação. Ao ditador, cabe apenas a companhia de sua cadela de estimação, a mulher que o ama e alguns poucos corajosos — ou despercebidos da realidade que os cercava. Apesar de retratar apenas uma pequena parte deste então decadente universo nazista, “A queda – As últimas horas de Hitler” serve como uma perfeita amostragem da praxis político-militar em vigor na Alemanha de Hitler. O discurso nacionalista, a opressão brutal, o preconceito e fascínio que o sistema conseguiu imputar ao povo dilapidado, estão todos lá, representados por personagens e situações que fornecem subsídios suficientes ao espectador para que ele possa delinear todo o restante do cenário. Como era de se esperar, um grande número de figuras históricas desfila frente às câmeras. Joseph Goebbels (Ulrich Matthes), ministro de Propaganda do Partido Nazista; Heinrich Himmler (Ulrich Noethen), infame líder das SS; Herman Göring (Mathias Gnädinger), comandante da Luftwaffe, a aeronáutica alemã; Albert Speer (Heino Ferch), ministro do Armamento do Terceiro Reich; Eva Braun (Juliane Köhler) e a própria Traudl Junge (Alexandra Maria Lara), todos soberbamente caracterizados, gravitam ao redor do suíço Bruno Ganz, que dá vida a um Hitler jamais visto no cinema. Para dar maior verossimilhança ao papel, o ator chegou a estudar com um fonoaudiólogo o sotaque característico à região onde o ditador nasceu, Braunau am Inn, na Áustria. Além disso, Ganz se debruçou sobre a única gravação conhecida da voz de Hitler em sua intimidade — registrada na Finlândia, durante uma visita ao marechal e barão Carl Gustav Emil Mannerheim —, quando, argumentam estudiosos, ao contrário das ocasiões em que se encontrava em comícios e discursos políticos, falava discretamente. O resultado é uma atuação que, não por acaso, lhe valeu a indicação ao European Film Awards de Melhor Ator. A direção impessoal de Hirschbiegel torna “A queda – As últimas horas de Hitler” um filme quase documental e a fotografia, acertadamente fria, ajuda a criar cenários estéreis, que vão das grossas paredes de concreto que protegem o refúgio subterrâneo de Hitler às inúmeras ruínas que à época tomavam cada esquina de Berlim. A trilha sonora, embora quase ausente, soa no momento correto, ampliando o efeito dramático de determinadas cenas. Boicotado pelo povo israelense, mesmo após passar pelo rígido controle da censura, o longa-metragem foi severamente criticado por humanizar a temida figura do ditador alemão. Durante o filme, o Führer intercala momentos de plácida interação com amigos queridos e subordinados mais íntimos com explosões de fúria incontrolável frente a seus generais, que não conseguiam impedir o avanço do Exército Vermelho, e desprezo extremo pelo próprio povo alemão, o qual estava disposto a sacrificar em nome de sua causa. Dessa forma, cria-se um contraste que torna, sim, sua figura mais humana, mas, não por isso, mais humanitária. Construído puramente sob a ótica alemã, “A queda – As últimas horas de Hitler” evita concessões e estereótipos, produzindo um retrato bastante fiel não só de Hitler, como de toda a elite nazista, do próprio povo e da realidade bastante cruel daqueles dias terríveis. Resta, por fim, apenas a constatação de Junge, que faleceu em 2001, dada em epílogo igualmente retirado de “Eu fui a secretária de Hitler”: juventude não é desculpa para ignorância.
Um dos principais incomodados torna-se o temido senador Joseph McCarthy que, em sua caça a supostos comunistas, não poupava recursos, em sua maioria um tanto questionáveis, para alcançar seus objetivos. Essa verdadeira guerra velada entre duas figuras públicas acaba por arrastar todos os envolvidos na execução do programa e, até mesmo, o presidente da emissora. Vencendo as ameaças de McCarthy e a pressão dos órgãos políticos e jornais concorrentes, a luta pela verdade prevalece. Segundo filme dirigido por George Clooney, que também atua, no papel de Fred Friendly, editor do programa de Morrow, “Boa noite e boa sorte” ganha peso ao levantar a eterna discussão sobre a ética nos meios de comunicação e reproduzir nas telas o conturbado cenário político norte-americano do pós 2º Guerra Mundial. A insanidade anticomunista torna-se um pano de fundo aterrador quando se percebe que um cidadão comum poderia ser sumariamente acusado de associações aos seus ideais e instituições e acabar trancafiado indefinidamente por questões de segurança nacional, o que ajuda a simpatizar com a luta do protagonista. Com um visual retrô, em preto e branco, “Boa noite e boa sorte” conta com um bom elenco e produção esmerada, tendo sido apontado para diversos prêmios por todo o mundo, incluindo o Oscar, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (David Strathairn), Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Arte e Melhor Fotografia, e o Globo de Ouro, para Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor, Melhor Ator – Drama (David Strathairn) e Melhor Roteiro, além do BAFTA e o Independent Spirit Awards. Para quem gosta de discussões sobre mídia, política, ética ou apenas um bom filme, “Boa noite e boa sorte deva agradar” em cheio.
“A casa dos 1000 corpos”, acompanha dois casais de jovens amigos que peregrinam através do interior dos Estados Unidos da década de 70 atrás de inspiração para escrever um livro. Em uma de suas muitas paradas, o grupo se depara com uma estranha loja de conveniências, administrada pelo sarcástico palhaço Capitão Spaulding, Lá, conhecem a lenda do Doutor Satã, médico que assassinava suas vítimas com requintes de crueldade. Pensando ter achado sua história, o grupo inicia uma busca pela árvore que teria servido de cadafalso improvisado ao psicopata, enforcado, mas cujo corpo jamais foi encontrado. E, como aponta a sinopse, “É lógico que é noite. É lógico que está chovendo. E é lógico que o pneu vai furar no meio do nada”. O quadro já muito conhecido pelos fãs do terror, obviamente, termina com os jovens inocentes se deparando com a terrível família Firefly e seus comparsas ainda mais hediondos. Obviamente, muitos clichês do gênero se fazem presentes em “A casa dos 1000 corpos”. Um caroneiro suspeito em uma estrada vazia, o carro que quebra providencialmente perto de uma casa sinistra, o estranho especialmente prestativo e, claro, a família de lunáticos com forte apetite por carne humana (e um patriarca especialmente bizarro), além de assassinos, monstros dos mais sortidos, violência gratuita e muito sangue. Curiosa, entretanto, é a tentativa do diretor em ao mesmo tempo em que praticamente recria o cânone, traçar um diálogo entre as duas gerações mais famosas do terror, aquela dos psicopatas incomodamente realistas, inaugurada por “O massacre da serra elétrica” e a outra, dos monstros sobrenaturais, que tem em Jason Voorhees e Freddy Krueger seus mais famosos representantes. Reciclando todas essas referências, Rob Zombie cria uma bela obra visual. Abusa das formas de captação de imagem e das possibilidades da fotografia. Filma tanto na bitola 35 mm quanto na 16 mm. Brinca com flashbacks, utiliza bem as cores e o preto e branco. Traça referências que vão além do terror, como os nomes dos personagens, apropriados de personagens do comediante norte-americano Grouxo Marx, como Captain Spaulding e Rufus Firefly. Mostra-se, no geral, um bom criador de situações. Mas é no texto e na montagem que seu filme tropeça e perde força. Fraco escritor de diálogos — algumas das frases cometidas são algo de constrangedor —, Zombie se atrapalha na edição e torna o filme um pouco confuso. Isso faz com que, por vezes, não se saiba o que está acontecendo. Nem pela boca dos personagens, nem pelo encadeamento dos acontecimentos. Talvez tais fatos decorram da interferência da Universal Pictures, primeiro estúdio pelo qual passou “A casa dos 1000 corpos”. Decidida a lançar o filme diretamente em DVD, a Universal acabou vendendo seus direitos à Metro Goldwyn Mayer. A história, então se repetiu e a obra só viu a luz dos projetores nas mãos da Lions Gate, menor e menos exigente com a moral e os bons costumes. Por fim, alguns podem acusar Zombie de ser pouco original ou, mesmo, um plagiador, entretanto, apesar dos problemas, “A casa dos 1000 corpos” é realizado com esmero de um fã e não a voracidade de um caça níqueis. Pode agradar em cheio, portanto, os mais fiéis e puritanos consumidores do terror, que tem, agora, considerável adição a fazer ao seu panteão de psicopatas e maníacos homicidas: a família Firefly.
Se “A casa dos 1000 corpos” (“House of 1000 corpses”, 2003) o revelou diretor e escritor de bom tino para enredos e situações, ainda que não fosse brilhante nos diálogos, e que, a despeito do conturbado processo de edição, conseguiu reunir o horror árido e realista estabelecido por Tobe Hoper em “O massacre da serra elétrica” (“The Texas chainsaw massacre”, 1974) à abordagem de cunho sobrenatural que invadiu o gênero a partir do início da década de 80 com Jason e companhia, fazendo bom uso dos clichês presentes em ambas, a continuação, “Rejeitados pelo diabo” (“The devil’s rejects”, 2005), vai além. Ao optar por abandonar as concessões à realidade representadas pelos monstros que habitavam o velho casarão da família Firefly e seu pouco plausível líder, Dr. Satã, em “A casa dos 1000 corpos”, para abraçar como força motriz de seu novo longa-metragem o sadismo e maldade tão reais que tornaram famosas figuras como Jheffrey Dhamer, Ed Gein e Charles Manson, o diretor empresta verossimilhança à trama. E é evocando lembranças de eventos tão terríveis e trabalhando com a idéia de que tudo o que se apresenta na tela pode vir a ser que Zombie conduz “Rejeitados pelo diabo”, com toques de road movie e western. Não obstante a diferença de perspectiva — que se reflete em tudo, dos figurinos aos cenários —, a seqüência não se divorcia totalmente do capítulo anterior e se vale de fatos e personagens comuns para detonar seus 109 minutos de violência. Após um mal fadado cerco policial à residência dos Firefly, clímax de “A casa dos 1000 corpos”, o xerife Wydell (William Forsythe) reúne um novo grupo de homens da lei para vingar seu irmão, George (Tom Towles), morto na campanha anterior. Entretanto, Otis (Bill Moseley) e Baby (Sheri Moon Zombie) escapam, encontram-se com o palhaço Capitão Spaulding (Sid Haig) e iniciam uma fuga desesperada, cujo saldo pouco concorre para seu sucesso. E se o xerife, que enxerga a si próprio como a mão justiceira de Deus, prescinde dos deveres de seu cargo e valores de cristão fervoroso para levar a cabo a punição que entende necessária, os caçados, estimulados pelo senso de auto-preservação, tornam-se como inevitáveis forças da natureza, dispondo de quaisquer vidas que se ponham em seu caminho. Abusando dos recursos de edição, Zombie mescla diferentes filtros e técnicas de filmagens para criar uma viagem áudio-visual que, lembrando Oliver Stone e seu “Assassinos por natureza” (“Natural born killers”, 1994), ainda que de forma não tão radical, vai do super 8 à película, da câmera no ombro à steadycam, com imagens sempre marcadas pela paleta de cores amareladas e visual granulado, reforçado pelo uso de fotografias e pseudo documentários de cunho noticioso, que aumentam a sensação de realismo que envolve a história ao dar-lhe física própria. Assim, ações ganham reações da mídia, da polícia e da própria população, atingida pela passagem dos assassinos. O elenco não guarda surpresas. Além de colabores habituais do cineasta e velhos conhecidos dos fãs de horror, Moseley e Haig, apesar do texto ainda pouco chamativo — com exceção de uma discussão a respeito da cômica relação existente entre Grouxo Marx, cujos personagens batizam os protagonistas do longa-metragem, e Elvis Presley, travada pelo xerife Wydell e um especialista em cinema —, roubam facilmente as cenas em que surgem, deixando Moon, cuja personagem parece sofrer especialmente com suas linhas de diálogo, na desconfortável situação de esposa do diretor. Ademais, Zombie incluiu no filme participações que farão a alegria de muitos espectadores, como Danny Trejo (o mexicano mais requisitado de Hollywood) e Geoffrey Lewis. De forma distinta de “A casa dos 1000 corpos”, cuja trilha sonora era composta quase que apenas por músicas do próprio Zombie, “Rejeitados pelo diabo” acaba por privilegiar artistas como Blind Willie Johnson, Terry Reid e Lynyrd Skynyrd, trazendo um acompanhamento rock/country um tanto quanto apropriado para seu cenário sulista interiorano. Destaque para a bela canção “Free bird”, do Skynyrd, que acompanha os momentos finais de Otis, Baby e Spaulding.
Começando exatamente onde “Homem de Ferro” parou, a seqüência mostra Tony Stark (Downey Jr.) lidando com as conseqüências de haver revelado ao mundo, durante uma coletiva de imprensa, ser, na verdade, o homem por trás da armadura do Vingador Dourado. E a principal delas — além do assédio, que, absolutamente, lhe afaga o ego enorme — é a tentativa por parte do governo dos Estados Unidos de se apropriar de sua tecnologia, que considera uma arma, e, portanto, de uso exclusivo do exército. Comandada pelo senador Stern (Garry Shandling), a abordagem, embora fracassada, planta as raízes do conflito que se desenvolverá entre o playboy inventor e seu melhor amigo, o tenente coronel da força aérea James Rhodes (antes Terence Howard, agora, Don Cheadle, que entra em cena de costas, de forma a facilitar a transição). Rhodes, como militar, deve obediência ao governo, mas, luta para não prejudicar Tony, embora reprove sua frivolidade e irresponsabilidade. Contudo, o comportamento do bilionário se agrava quando, fragilizado pela descoberta de que o paládio utilizado para alimentar o Reator Ark que carrega no peito a fim de permanecer vivo o está envenenando, é obrigado a enfrentar dois novos inimigos: o vingativo russo Ivan Vanko (Mickey Rourke), cujo passado se relaciona estreitamente com o da família Stark, e o invejoso e aproveitador Justin Hammer (Sam Rockwell), que assumiu a posição de fornecedor de tecnologia bélica do exército quando a Stark Industries retirou-se do mercado. A morte iminente afrouxa ainda mais os já poucos limites de Stark, afastando sua assistente pessoal e atual CEO de sua empresa, Pepper Potts (Gwyneth Paltrow), e seu guarda-costas, Happy Hogan (o diretor Jon Favreau), e levando Rhodes a tomar uma difícil decisão. Restará, então, ao Homem de Ferro, buscar no passado, assombrado pela severidade e aparente distância do pai, Howard (John Slattery substituindo Gerard Sanders), forças para sobrepujar esse novo desafio e retomar as rédeas de sua própria vida. Não sem auxílio, é claro, pois a S.H.I.E.L.D., representada por seu diretor, o general Nick Fury (Samuel L. Jackson), e a agente Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), continuam interessados no brilhante inventor. Dirigido por Favreau com a mesma competência do primeiro capítulo da cinessérie, “Homem de Ferro 2” se vale, assim como o anterior, de uma trama eficiente, embora simples, diálogos bem escritos e atores escolhidos a dedo para entregar uma história que harmoniza ação, comédia e até uma pitada de drama sem se perder pelo caminho. No entanto, embora a trama evoque elementos da clássica saga “O demônio na garrafa” (“Demon in a bottle”, 1979), de David Michelinie e Bob Layton, em que Stark, completamente alquebrado, sucumbe ao alcoolismo após um colapso emocional, torna-se evidente a tentativa do roteirista, o também ator Justin Theroux, de amenizar a queda do bon vivant, ao trocar a o whisky pelo paládio, embora a bebida não esteja ausente e motive uma das cenas mais cômicas do longa-metragem. E se a história desgasta um pouco o arquétipo “vilão de armadura”, repetindo-o e tornando um novo uso em um possível terceiro filme algo arriscado, é bastante feliz ao tornar Justin Hammer um personagem diametralmente oposto a Obadiah Stane (Jeff Bridges), vilão do primeiro filme. Dois concorrentes de Stark que transformaram a vida do herói em um verdadeiro inferno em diferentes ocasiões, os personagens guardam, nos quadrinhos, semelhanças que tornariam seu uso tão aproximado perigoso, não fosse a criatividade de Theroux, que, contudo, poderia ter dado mais atenção à batalha decisiva entre o Tony, Rhodes, trajando a armadura Máquina de Combate, e Ivan Vanko, ainda mais veloz que o clímax de “Homem de Ferro. As interpretações mantêm o nível. Robert Downey Jr., ainda irônico e cínico, nasceu para viver Tony Stark. Don Cheadle empresta mais carisma ao seu Rhodes, enquanto Gwyneth Paltrow, o diretor e Samuel L. Jackson ganham mais espaço para seus personagens, embora careça, ainda, ao último, uma interpretação que torne seu Fury realmente diferente dos demais personagens que o ator já interpretou. Scarlett Johansson faz uma agente fria, que, ao contrário do alguns apontam, possuiu, sim, papel definido e importante no contexto, não sendo mero atrativo visual. Mickey Rourke se esforça no sotaque e lida bem com o papel de físico e gênio científico brutalizado por uma vida de crimes, chegando mesmo a exibir as estrelas que identificam seu personagem como um vor v zakone, um ladrão chefe da Bratva, a máfia russa. Já Sam Rockwell é eficiente em compor uma versão covarde, invejosa pouco competente ou carismática do próprio protagonista, emprestando-lhe uma aura de infantilidade repulsiva. Mesmo Garry Shandling brilha em suas breves passagens pela tela. Vale ressaltar, ainda, as dezenas de easter eggs espalhados ao longo do filme. Uma referência aparentemente velada, e outra franca, ao Thor, um novo vislumbre sobre o escudo ainda em produção do Capitão América, ligações com “O incrível Hulk” e outras surpresas aguardam os fãs mais atentos. Por fim, se “Homem de Ferro 2” não se estabelece como o melhor longa-metragem baseado em quadrinhos já produzido por Hollywood, posto que pertence, na opinião deste que vos escreve, a “O cavaleiro das trevas” (“The dark knight”, 2008), é, sem sombra de dúvidas, a melhor adaptação de um personagem de quadrinhos para o cinema, pois, enquanto o Batman de Christopher Nolan e Christian Bale ainda apresenta faltas em relação ao Homem Morcego da celulose, notadamente seu inigualável talento investigativo, o Tony Stark de Jon Favreau e Robert Downey Jr. extrapola a criação original, adicionando a ela vitalidade, humanidade e uma nova dimensão.
Caído de pára-quedas na briga entre o Chefe (Morgan Freeman) e o Rabino (Ben Kingsley), Slevin se vê obrigado a matar o filho do judeu, para igualar o placar entre os velhos parceiros de crime, ou acabar ele próprio sofrendo do mesmo destino que deveria dar ao pobre rapaz. Para conseguir sair dessa confusão, Slevin conta com a ajuda da vizinha de seu amigo, Lindsey (Lucy Liu), uma médica legista bastante voluntariosa e carismática, com um tino detetivesco afiado. Porém, isso não será tão fácil, uma vez que um misterioso assassino, conhecido apenas como Goodkat (Bruce Willis), promete complicar as coisas, jogando dos dois lados. O diretor Paul McGuigan, de “Paixão à flor da pele” (“Wicker park”, 2004), faz de “Xeque-mate” um filme de suspense que consegue fugir dos clichês do gênero, construindo uma atmosfera mais descontraída, com boas piadas, mas sem deixar de lado a violência e seriedade quando se faz necessário. Josh Hartnett, apesar de não ser um ator brilhante, não faz feio. Lucy Liu é outra que se não merece o Oscar, ao menos não fica devendo. Na verdade, o saldo é positivo. Já Bruce Willis, faz exatamente aquilo que o consagrou e interpreta mais um cara bronco com uma arma na mão. Morgan Freeman e Ben Kingsley, os grandes nomes do filme, funcionam muito bem em seus papéis, tornando-os interessantes e mais convincentes. A montagem ligeira puxa o ritmo do filme e a história, complexa, repleta de “camadas”, reviravoltas e situações inusitadas, certamente vai deixar os espectadores colados na cadeira até o final, regado à ótima canção “Kansas city shuffle”, do jazzista Bennie Moten. Outro ponto bacana que notei na edição foi um aparentemente proposital embaçamento do plano de fundo em determinadas cenas, recurso que acabou criando certo contraste funcional, ressaltando os personagens e criando uma estética incomum. Se você gosta de filmes no estilo de “Jogos, trapaças e dois canos fumegantes” (“Lock, stock and two smoking barrels”, 1998) e “Snatch – Porcos e diamantes” (“Snatch”, 2000), certamente vai gostar também de “Xeque-mate”.
Divididos aleatoriamente em dois grupos, guardas e prisioneiros, os voluntários deveriam viver, durante 14 dias, a rotina de um ambiente prisional. Reduzidos a números e destituídos e direitos civis, os encarcerados vêem os primeiros dias transcorrem em meio a brincadeiras e badernas promovidas, principalmente, pelo número 77, Tarek. Porém, logo a promessa de dinheiro fácil se dilui em jogo de poder no qual ambos os lados se chocam em busca da supremacia. Um jogo perigoso que transgride todos os limites morais e éticos e leva seus participantes ao limite de seus instintos e convicções. Dirigido por Oliver Hirschbiegel, de “A queda: As últimas horas de Hitler” (“Der untergang”, 2004), “A experiência” (“Das experiment”, 2001) se baseia no livro “Black box” (2001, ainda sem tradução no Brasil), de Mario Giordano, um dos roteiristas, escrito a partir de uma série de experimentos reais similares, que ficaram conhecidos como Stanford prison experiment. Contudo, o filme extrapola o fato e eleva a situação – abortada quando começaram os primeiros sinais de descontrole – a um novo patamar, trágico e bastante provável. Neste thriller claustrofóbico, não são as boas atuações, direção ou roteiro, que conta, ainda, com contribuições de Christoph Darnstädt e Don Bohlinger, o que chama mais a atenção, mas, sim, a discussão proposta acerca da natureza do homem, “naturalmente agressivo, cientificamente provocado”, como enunciado já na capa. Sua capacidade de subjugar seu lado racional e, com um aval oficial, se entregar a instintos que, talvez, nunca deixasse aflorar em outra circunstância. Com um argumento pungente e temática forte, “A experiência” pinta um retrato perturbador de nossos semelhantes e até de nós mesmos, deixando uma desconfortável pergunta no ar: como reagiríamos a uma situação extrema?
Na trama, Downey Jr. vive o genial bilionário Tony Stark. Um dos principais fornecedores de tecnologia das Forças Armadas americanas, o industrial acaba seqüestrado por um grupo terrorista, chamado Os Dez Anéis, após uma exibição de sua mais nova criação, o míssil Jericó, para militares conterrâneos no Afeganistão. Mortalmente ferido por uma explosão, o inventor é salvo pelo médico e engenheiro Yinsen (Shaun Toub), outro prisioneiro do bando. Em troca de sua liberdade, os captores exigem que Tony construa um exemplar do Jericó. Porém, a visão de uma série das suas criações em mãos inimigas — utilizadas para tirar vidas inocentes e não para proteger seus compatriotas como queria — transforma o frívolo, irônico e egoísta Stark, que utiliza os parcos recursos de que dispõe para desenvolver um fantástico protótipo de armadura de combate, o que possibilita uma fuga desesperada. Novamente em casa, Tony decide desativar a divisão de armamentos das Indústrias Stark e começa a trabalhar, secretamente, em uma versão mais moderna do poderoso exoesqueleto. A polêmica decisão, contudo, levará o playboy-herói a uma longa estrada rumo à redenção, repleta de ação, intrigas e conflitos industriais e políticos, além de lançá-lo contra uma série de inimigos inesperados, inimigos esses que apenas o Homem de Ferro pode derrotar. Primeiro longa-metragem inteiramente financiado pela nova divisão cinematográfica da Marvel Comics, Homem de Ferro refaz o caminho de sucesso desbravado por outro membro do panteão da Casa das Idéias, o Homem-Aranha, e estabelece um inédito padrão de qualidade e fidelidade que possivelmente norteará todas as vindouras produções do Marvel Studio. Respeitoso com a origem e mitologia do personagem, o filme condensa o que há de mais significativo nesses 65 anos de histórias em um enredo sólido, repleto de referências e homenagens. Do inseparável amigo Jim Rhodes (Terrence Howard) ao ambíguo Obadiah Stane (Jeff Bridges), passando pelo guarda-costas Happy Hogan (vivido pelo próprio Favreau), a secretária Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e um renovado Jarvis (voz de Paul Bettany), desfilam pela tela velhos conhecidos dos fãs do Vingador Dourado, em interpretações inspiradas e caracterizações idem. Vale ressaltar, também, a presença de uma participação mais que especial, inserida após os créditos. Homem de Ferro, porém, não se restringe à celulose e extrapola a criação de Stan Lee e Don Heck, trazendo novo fôlego e abordagem ao personagem, cujo nascimento se deu no já desgastado âmbito da Guerra Fria. Além de inserirem uma óbvia crítica à política internacional dos EUA, ao denunciar seu auxílio, às vezes mesmo que indireto, àqueles que um dia terão de enfrentar, as mudanças atualizam a origem do personagem, trazendo-o para um contexto geopolítico mais familiar à maioria. Por fim, diretor, roteiristas e ator conseguiram imprimir-lhe, também, novas características, transformando Stark em um cínico, um dandy, o centro ao redor do qual giram seus círculos sociais, a ele sempre disponíveis. Algo que, se aplicado com a mesma eficiência aos quadrinhos, seria muito bem-vindo. |
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