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“Nell”
Porém, as boas intenções de Lovell tropeçam nos interesses científicos da psicóloga Paula Olsen (Natasha Richardson), a quem ele próprio pede ajuda, e sua equipe. Sob os olhos do judiciário, eles têm um mês para descobrir se o melhor para Nell é ser deixada sozinha em seu mundo ou ser levada para uma instituição de tratamento adequada. Então, a dupla acaba por descobrir que a figura amedrontada e arredia, de aparente debilidade mental, é o símbolo de que a humanidade pode nascer e florescer nos locais mais adversos e que, não necessariamente, sua civilização é adequada para todos, embora os homens da ciência tenham certeza de que sim. Apesar da fragilidade da narrativa enquanto cinema, que chega a encarar, por vezes, o tema de forma mesmo pueril, a força da película reside – além da admirável fotografia de Dante Spinotti, que ressalta as belezas naturais dos cenários selvagens – na interpretação de Jodie Foster, que, entregue ao papel, dá corpo e voz a uma personagem que atesta a complexidade do papel da fala na formação do indivíduo com tal intensidade que nos faz ignorar as discrepâncias entre seu comportamento durante a primeira viagem à cidade e o discurso proferido próximo ao final do filme, baseado em raciocínios mais intrincados, que a fazem parecer conhecedora do sistema social vigente de forma mais completa que sua experiência poderia fazer supor. De fato, talvez pela complexidade do tema, depõe contra o filme, principalmente, a aparente indecisão da forma como Nell é tratada. Embora tenha sido criada pela mãe, que viveu em sociedade e conheceu as mazelas do mundo, que realizava compras periodicamente, como atesta a chegada do entregador que lhe encontra o cadáver, torna-se no mínimo estranho que Nell se comporte, por vezes, quase como um animal, a exemplo da cena em que Lovell lhe apresenta a pipoca ou naquela em que é assediada em um bar. Se a mãe lhe ensinava religião, se era sua única companhia e interlocutora, é perfeitamente plausível supor que, embora tenha demonstrado excesso de zelo ao manter a filha em casa, tenha falado, também, sobre outros assuntos do mundo, ou, ao menos, sobre os conceitos que o regem. Afinal, ela certamente questionaria quem entregava os mantimentos ou porque era trancafiada ao menor sinal da chegada de um estranho. Por fim, a regalia deveria ser paga, de forma que a mãe certamente deveria se ausentar para angariar fundos, fosse em um banco, fosse vendendo algo que produzira. De qualquer forma, levantaria dúvidas, dúvidas que tornam a Nell que decide seu destino mais convincente do que aquela que se deixa levar inocentemente por gestos, gostos, sons ou cheiros. |
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