Categorias

“Nell”

NellDe Rômulo e Remo, os mitológicos fundadores de Roma, alimentados por uma loba, às gêmeas Amala e Kamala, criadas por uma alcatéia no jângal indiano, passando pelo destemido Tarzan, que conquistou a liderança do clã de chimpanzés que o “educara” após ser abandonado nas savanas africanas com força e honra, a história, a ciência e ficção já tiveram sua quota de humanos selvagens. Esses personagens vêm sendo, ao longo do tempo, analisados e discutidos à luz da antropologia, da sociologia, da psicologia e da filosofia. Assim sendo, o que a assustadiça personagem título de “Nell” (Idem 1995) – longa-metragem homônimo dirigido por Michael Apted sobre texto de Mark Handley, autor, também, da peça de teatro “Idioglossia” (Idem, 1992), na qual o filme se baseia – tem a acrescentar ao debate? Resvalando pelas questões da ética médica, embora não se aprofunde muito, e, especialmente, dialogando com teorias sobre a formação da linguagem e do papel que ela desempenha no entendimento da realidade pelo homem.
Na trama, Nell Kelty (Jodie Foster) foi criada totalmente isolada da sociedade pela mãe, que se tornara uma ermitã após ser vitimada pelo estupro que a gerou. Sem um parâmetro, a mulher cresceu tendo como única referência a figura materna, que a escondeu desde criança dentro da casa sem luz elétrica ou água encanada em que viviam, permitindo-lhe sair apenas à noite, quando olhos maliciosos dificilmente lhe alcançariam. Como resultado, porém, Nell, além de desconhecer o mundo para além dos limites das belas Smoky Mountains, na Carolina do Norte, cultivou uma variação única do inglês, construída, durante o processo de apreensão da fala, sobre a deficiência da mãe, que tivera metade da face acometida por grave paralisia. Essa forma característica de se comunicar era partilhada com a irmã gêmea, falecida ainda nova, e tornou-se completamente misteriosa para os demais com a morte de sua mãe. E é justamente a intrigante improbabilidade do que encontra ao atender ao pedido do xerife de acompanhá-lo até a rústica morada da recém finada senhora Kelty que leva o médico Jerry Lovell (Liam Neeson) a se envolver.

Porém, as boas intenções de Lovell tropeçam nos interesses científicos da psicóloga Paula Olsen (Natasha Richardson), a quem ele próprio pede ajuda, e sua equipe. Sob os olhos do judiciário, eles têm um mês para descobrir se o melhor para Nell é ser deixada sozinha em seu mundo ou ser levada para uma instituição de tratamento adequada. Então, a dupla acaba por descobrir que a figura amedrontada e arredia, de aparente debilidade mental, é o símbolo de que a humanidade pode nascer e florescer nos locais mais adversos e que, não necessariamente, sua civilização é adequada para todos, embora os homens da ciência tenham certeza de que sim.

Apesar da fragilidade da narrativa enquanto cinema, que chega a encarar, por vezes, o tema de forma mesmo pueril, a força da película reside – além da admirável fotografia de Dante Spinotti, que ressalta as belezas naturais dos cenários selvagens – na interpretação de Jodie Foster, que, entregue ao papel, dá corpo e voz a uma personagem que atesta a complexidade do papel da fala na formação do indivíduo com tal intensidade que nos faz ignorar as discrepâncias entre seu comportamento durante a primeira viagem à cidade e o discurso proferido próximo ao final do filme, baseado em raciocínios mais intrincados, que a fazem parecer conhecedora do sistema social vigente de forma mais completa que sua experiência poderia fazer supor.

De fato, talvez pela complexidade do tema, depõe contra o filme, principalmente, a aparente indecisão da forma como Nell é tratada. Embora tenha sido criada pela mãe, que viveu em sociedade e conheceu as mazelas do mundo, que realizava compras periodicamente, como atesta a chegada do entregador que lhe encontra o cadáver, torna-se no mínimo estranho que Nell se comporte, por vezes, quase como um animal, a exemplo da cena em que Lovell lhe apresenta a pipoca ou naquela em que é assediada em um bar.

Se a mãe lhe ensinava religião, se era sua única companhia e interlocutora, é perfeitamente plausível supor que, embora tenha demonstrado excesso de zelo ao manter a filha em casa, tenha falado, também, sobre outros assuntos do mundo, ou, ao menos, sobre os conceitos que o regem. Afinal, ela certamente questionaria quem entregava os mantimentos ou porque era trancafiada ao menor sinal da chegada de um estranho. Por fim, a regalia deveria ser paga, de forma que a mãe certamente deveria se ausentar para angariar fundos, fosse em um banco, fosse vendendo algo que produzira. De qualquer forma, levantaria dúvidas, dúvidas que tornam a Nell que decide seu destino mais convincente do que aquela que se deixa levar inocentemente por gestos, gostos, sons ou cheiros.

Responder

 

 

 

Você pode usar estes tags HTML

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>